UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA.
Por Jorge Alexandre Alves*
No começo da noite de hoje assisti a uma live no canal OLMA Observatório, pelo Youtube. Um debate muito bom de um tema que me interessa academicamente.
Lá pela tantas, um teológo (cujos textos e alocuções eu gosto bastante) mencionou o termo NECRORRELIGIÃO, mas o atribuiu a um outro teológo. Isso me deixou um tanto ressabiado, afinal é uma expressão que uso há uns dois anos, pelo menos, como extrapolação do conceito de NECROPOLÍTICA (de Achille Mbembe).
Nunca publiquei academicamente essa categoria. Pesquisando, descobri um livro e um artigo de pesquisadores ligados a UFJF onde a expressão é utilizada, mas sem nenhuma referência.
Quando estava no mestrado, meu orientador foi bastante exigente com citações e uso de categorias. Sou muito grato. Até por uma questão de honestidade intelectual.
Esse é uma questão séria. Um conceito somente existe após a publicação de um artigo acadêmico? A academia pode ser um lugar privilegiado para fazer circular ideias e formular teorias, mas não é o único espaço onde conceitos e categorias podem ser criados com algum rigor argumentativo.
Talvez uma das causas de tanto negacionismo científico resida em um certo encastelamento da universidade e dos meios acadêmicos em si. Se o que é produzido fora da pesquisa acadêmica sequer dialoga com o debate intelectual, como esperar que a divulgação científica tenha largo alcance público? Hoje sofremos com essa falta de diálogo.
Se não virou capítulo de livro ou artigo em revista com "qualis", não existe. Ou pior, não merece referência e usa-se um termo já como se fosse uma novidade. Complicado...
Não se trata de uma questão de vaidade pessoal, mas de justiça. Por isso mesmo não vejo problemas em, existindo uma publicação anterior aos meus textos, passar a dar os devidos créditos.
Na campanha eleitoral de 2016, fui atacado por um clérigo ultraconservador durante o processo eleitoral. No final daquele ano, Mbembe republicou o seu ensaio original sobre Necropolítica. Desde então penso a respeito dessa categoria, e se ela poderia ser extrapolada para a conjuntura religiosa brasileira, já naquele momento muito afetada pelo fundamentalismo religioso cristão.
Mas foi apenas em meados de 2019 que tornei pública essa ideia, em um artigo (não acadêmico) publicado (junho de 2019) no sítio do Portal das Cebs. Naquele momento levantava materiais para um futuro projeto de doutorado. O conceito simplesmente não existia ou nunca alguém havia escrito a respeito.
Fazia pouco mais de um mês da minha defesa de dissertação. Marcou minha mundança de área da Educação para a área da Sociologia da Religião.
Logo depois, participei de dois eventos acadêmicos em sequência, no Museu Nacional e na UERJ, onde usei a expressão Necrorreligião. Entre um e outro, fiz uma assessoria sobre conjuntura religiosa no Encontro Nacional da Ordem Franciscana Secular, onde também abordei a ideia.
Depois escrevi outros dois textos, publicados na página de Iser Assessoria em Setembro e Outubro. Enfim, acho que posso reivindicar a autoria da expressão, ao menos até que me mostrem outra publicação anterior. Nesse caso, não terei problema algum em, daqui por dante, dar os devidos créditos.
Não sei se irão me dar o devido reconhecimento pelo termo NECRORRELIGIÃO na academia. Mas tenho como provar o seu uso pelas minha publicações.
Acho difícil passarem a me citar por causa desse texto publicado simultaneamente numa rede social e em um blog bissexto que mantenho. Mas isso pouco importa porque vou continuar a produzir ideias e conceitos, mesmo que não esteja fazendo pesquisa acadêmica. Reitero, é uma questão de justiça.
*Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor da Educação Básica. Possui mestrado em Educação pela UFRJ e leciona no IFRJ. Integra a Coordenação Ampliada do Movimento Fé e Política.
Em tempo, seguem os links dos textos aos quais fiz referência:
https://iserassessoria.org.br/o-sinodo-da-amazonia-e-a-igreja-do-brasil-entre-silencios-e-oposicoes/