UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA.

 UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA.

Por Jorge Alexandre Alves*


No começo da noite de hoje assisti a uma live no canal OLMA Observatório, pelo Youtube. Um debate muito bom de um tema que me interessa academicamente.

Lá pela tantas, um teológo (cujos textos e alocuções eu gosto bastante) mencionou o termo NECRORRELIGIÃO, mas o atribuiu a um outro teológo. Isso me deixou um tanto ressabiado, afinal é uma expressão que uso há uns dois anos, pelo menos, como extrapolação do conceito de NECROPOLÍTICA (de Achille Mbembe).

Nunca publiquei academicamente essa categoria. Pesquisando, descobri um livro e um artigo de pesquisadores ligados a UFJF onde a expressão é utilizada, mas sem nenhuma referência.

Quando estava no mestrado, meu orientador foi bastante exigente com citações e uso de categorias. Sou muito grato. Até por uma questão de honestidade intelectual.

Esse é uma questão séria. Um conceito somente existe após a publicação de um artigo acadêmico? A academia pode ser um lugar privilegiado para fazer circular ideias e formular teorias, mas não é o único espaço onde conceitos e categorias podem ser criados com algum rigor argumentativo.

Talvez uma das causas de tanto negacionismo científico resida em um certo encastelamento da universidade e dos meios acadêmicos em si. Se o que é produzido fora da pesquisa acadêmica sequer dialoga com o debate intelectual, como esperar que a divulgação científica tenha largo alcance público? Hoje sofremos com essa falta de diálogo.

Se não virou capítulo de livro ou artigo em revista com "qualis", não existe. Ou pior, não merece referência e usa-se um termo já como se fosse uma novidade. Complicado...

Não se trata de uma questão de vaidade pessoal, mas de justiça. Por isso mesmo não vejo problemas em, existindo uma publicação anterior aos meus textos, passar a dar os devidos créditos.

Na campanha eleitoral de 2016, fui atacado por um clérigo ultraconservador durante o processo eleitoral. No final daquele ano, Mbembe republicou o seu ensaio original sobre Necropolítica. Desde então penso a respeito dessa categoria, e se ela poderia ser extrapolada para a conjuntura religiosa brasileira, já naquele momento muito afetada pelo fundamentalismo religioso cristão.

Mas foi apenas em meados de 2019 que tornei pública essa ideia, em um artigo (não acadêmico) publicado (junho de 2019) no sítio do Portal das Cebs. Naquele momento levantava materiais para um futuro projeto de doutorado. O conceito simplesmente não existia ou nunca alguém havia escrito a respeito.

Fazia pouco mais de um mês da minha defesa de dissertação. Marcou minha mundança de área da Educação para a área da Sociologia da Religião.

Logo depois, participei de dois eventos acadêmicos em sequência, no Museu Nacional e na UERJ, onde usei a expressão Necrorreligião. Entre um e outro, fiz uma assessoria sobre conjuntura religiosa no Encontro Nacional da Ordem Franciscana Secular, onde também abordei a ideia.

Depois escrevi outros dois textos, publicados na página de Iser Assessoria em Setembro e Outubro. Enfim, acho que posso reivindicar a autoria da expressão, ao menos até que me mostrem outra publicação anterior. Nesse caso, não terei problema algum em, daqui por dante, dar os devidos créditos.

Não sei se irão me dar o devido reconhecimento pelo termo NECRORRELIGIÃO na academia. Mas tenho como provar o seu uso pelas minha publicações.

Acho difícil passarem a me citar por causa desse texto publicado simultaneamente numa rede social e em um blog bissexto que mantenho. Mas isso pouco importa porque vou continuar a produzir ideias e conceitos, mesmo que não esteja fazendo pesquisa acadêmica. Reitero, é uma questão de justiça.

*Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor da Educação Básica. Possui mestrado em Educação pela UFRJ e leciona no IFRJ. Integra a Coordenação Ampliada do Movimento Fé e Política. Em tempo, seguem os links dos textos aos quais fiz referência:




DISCURSO DE ESTADISTA, ENTREVISTA DE CANDIDATO

 DISCURSO DE ESTADISTA, ENTREVISTA DE CANDIDATO

Foto: Marlene Bergamo/Folhapress
*Por Jorge Alexandre Alves

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva realizou ontem uma conferência de imprensa, a primeira após a anulação pelo STF dos processos onde já havia sido condenado.  O antigo líder sindical sempre insistira em sua inocência, tendo recusado várias vezes fugir do país ou pedir asilo político em uma embaixada estrangeira. Antes de responder aos jornalistas, o petista fez um discurso de grande impacto.

Sem esquecer a injustiça da prisão, o ex-presidente não se colocou como vítima. Ao contrário, fez questão de mostrar solidariedade às famílias que perderam seus parentes na pandemia e ao povo que sequer tem o que comer por causa da crise econômica

Já na entrevista propriamente dita, colocou-se como líder da oposição ao governo Bolsonaro e, mesmo negando que fosse candidato, respondeu às perguntas como postulante ao Planalto em 2022. Goste-se ou não do ex-operário, é notável sua capacidade de falar à população e a forma carismática pela qual se comunica.

Lula transitou com maestria pelas temáticas fundamentais para o país. Desenvolvimento, educação, saúde, papel das Igrejas, imprensa foram temas que ele abordou.

Promoveu a vacina, ressaltou o trabalho dos médicos e defendeu o SUS. Afirmou a necessidade de uma política externa independente – sobretudo em relação aos EUA – e se mostrou comprometido com o princípio da autodeterminação dos povos.

Com fina ironia, condenou o negacionismo, dizendo com todas as letras que a Terra é redonda. E, com maestria, enfiou seus adversários no bolso sem parecer agressivo.

O fato é que Luís Inácio fez uma aparição histórica ontem. Muitos consideram que foi um discurso de estadista. Enfim, tivemos Lula em estado de graça. 

Vale dizer que 116 veículos internacionais de imprensa acompanharam a sabatina dos repórteres. O petista não fugiu das perguntas mais espinhosas. Não tergiversou a respeito da polarização com Bolsonaro, afirmando que o PT sempre vai polarizar na defesa da classe trabalhadora.

Defendeu o papel do Estado na indução do desenvolvimento e criticou a autonomia do Banco Central. Sobre o mercado, afirmou que a sociedade não pode ser refém do mercado, mas acenou aos investidores e empresários com o diálogo.

A decisão judicial que devolveu a Luís Inácio Lula da Silva seus direitos políticos e suas declarações abalaram a conjuntura política brasileira, certamente. Mas não alteraram a dramática situação socioeconômica que o país enfrenta neste momento

Mais de 2300 mortos de Covid por dia, alta dos preços da cesta básica, desemprego crônico, escalada da miséria... Trata-se de um cenário catastrófico que não vai retroceder em curto prazo. Vive-se o pior momento da história brasileira na atualidade.

Para piorar, nossos mandatários supremos comportam-se como se nada estivesse acontecendo. Nesse momento, a reaparição de Lula na cena política se apresenta como esperança de dias melhores.

Sua retórica pode ter lavado a alma de muita gente, e reacendido as esperanças de boa parcela de população. Vivemos um vácuo de liderança e de autoridade na condução dos destinos do país. Mas infelizmente – salvo se for impedido – Bolsonaro continuará presidente até dezembro de 2022.

Ou seja, ainda estamos longe demais das eleições. Não sabemos nem a anulação dos processos contra Lula será confirmada pelo STF. Houve virada política no Brasil, mas precisamos continuar cautelosos.

A extrema-direita se agita de ódio após o discurso do ex-presidente. Segmentos do bolsonarismo continuam a escalada autoritária, afirmando estarmos próximos do ponto de ruptura (sic!). Talvez nada tenha sido tentado ainda nessa direção por causa da Covid-19 e pela ação enérgica do STF no caso Daniel Silveira.

Nesse sentido, Lula é um potencial ameaça para esses setores. Mesmo que Bolsonaro deixe o poder mais cedo ou mais tarde, a base social do bolsonarismo não irá desaparecer rapidamente. Afinal, a cadela do fascismo sempre está no cio. Por isso, seria prudente ao ex-presidente cuidar mais de sua própria segurança.

Lula, com um único discurso, tomou a iniciativa da ação política. E, momentaneamente, parece pautar o comportamento do presidente. Bolsonaro, de imediato, passou a defender a vacina e usar máscaras. Resta saber se o petista continuará a pautar o Messias, para o bem da sociedade brasileira.

É notável a reação da grande mídia em relação ao ex-presidente. O maior grupo de comunicação do país, que dois dias atrás defendia Sérgio Moro, fez uma cobertura ímpar do discurso do líder petista. Limitou-se a responder pontualmente as críticas e deu grande visibilidade aos temas tratados por Lula da Silva.

Teremos a partir de agora, motivado pelos ataques que um governo extremista e negacionista desfere sistematicamente contra a imprensa, um novo patamar nas relações entre a grande imprensa e as esquerdas. Sobre quais bases? A mídia corporativa abandonará a narrativa em que apresenta a direita neoliberal com alternativa civilizatória possível contra o bolsonarismo? A conferir... 

Por outro lado, o velho sindicalista revelou uma ideia de desenvolvimento muito centrada na indústria automobilística e no petróleo. Ainda vale apostar em uma agenda nacional-desenvolvimentista?

Lula também acenou para os mercados e para o centro político no melhor estilo conciliador. Discurso de candidato ou uma espécie de versão 2.0 da Carta aos Brasileiros?

Se não estamos mais em um regime exatamente democrático; se as instituições e a Constituição estão desfiguradas; se avança a erosão dos princípios republicanos e se destrói o Estado, será possível resgatar direitos e um ambiente politicamente aceitável dentro das velhas regras da Nova República?  A correlação de forças nos permite hoje vislumbrar algo mais?

Finalmente, a mobilização que se produziu em torno do histórico discurso do ex-presidente deixa várias questões em aberto. E também existe o risco do campo popular cair em certo sebastianismo político, esperando que venha do líder do PT a redenção da sociedade brasileira.

Lula apresentou ao país uma plataforma reformista. E talvez seja essa alternativa possível diante do descalabro que se apresenta. Um governo de união nacional capaz de tirar o Brasil desse atoleiro. 

Ainda falta muito tempo até as eleições de 22. Até lá, muita coisa poderá acontecer. Nada garante uma nova vorada da conjuntura. É preciso manter cautela e observar atentamente o desenrolar dos acontecimentos

 
*Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor da Educação Básica. E considera que, apesar das contradições, Lula é o maior estadista vivo da América Latina.

O complicado xadrez das nomeações episcopais


 

O complicado xadrez das nomeações episcopais

Por Jorge Alexandre Alves*

Mais duas nomeações foram feitas para a Igreja do Brasil essa semana. Uma delas, estratégica demais por ser a capital do país.

Entretanto, o anúncio oficial do novo arcebispo foi precedido de vazamentos. Um site antecipou em um dia o nome do bispo e noticiou que ele estava envolvido em uma polêmica. Para aumentar o inusitado, um documento do vaticano (com carimbo de sigiloso) vazou em grupos de WhatsApp durante toda véspera da comunicação oficial pelo Vaticano.

Esta nomeação e esses eventos bizarros que a antecederam podem ser interpretadas como parte da guerra surda contra as reformas de Francisco que se materializam na Igreja do Brasil. Trata-se de um pontificado que sofre muito com resistências ao seu magistério em território nacional.

Há alguns anos acompanho esse xadrez das nomeações episcopais. E se ouve muita coisa aqui e ali através da "rádio sacristia" ou na "tv cúria diocesana"... Em alguns regionais, foram muito discutíveis as substituições recentes de bispos abertos à caminhada as Cebs e ao protagonismo do laicato.

Sempre pairou uma dúvida sobre se, no processo de escolha dos bispos, não havia alguma resistência a candidatos ao episcopado mais sintonizados com o perfil desejado pelo papa. Se esta tese é verdadeira, quem seriam os protagonistas da oposição ao Papa? Que movimentos na estrutura eclesiástica podem nos dar pistas dessa batalha não declarada?

Um indício talvez seja a troca do núncio apostólico, ocorrida recentemente. O anterior saiu da maior igreja nacional do catolicismo para ser “promovido” para a Rússia... A pátria do mais importante dos patriarcados da Igreja Ortodoxa, mas com um número bem pequeno de católicos e de dioceses.

Quando um documento sigiloso do vaticano sai na imprensa e circula por grupos de aplicativos de mensagens traz uma mensagem negativa para a Igreja. Primeiro, como um site jornalístico consegue acessar documentos que a grande mídia jamais tem acesso? Segundo, o propalado segredo pontifício cada vez mais deixa de ser secreto. Até cartas encíclicas vazam antes da hora, como foi com a Fratelli Tutti, dias atrás.

No caso de Brasília, a objeção, ressalvado o amplo direito de defesa e ao contraditório, é a acusação feita de racismo religioso, conforme relatou o site jornalístico de viés conservador “O Antagonista”. Estranho que tal polêmica a respeito de um prelado alinhado ideologicamente com essa página eletrônica seja publicada.

Tal acusação foi devidamente investigada? Quando interpelado sobre a denúncia, qual foi a postura e como o novo arcebispo da capital federal se referiu à vítima do racismo religioso? São questões que pairam no ar...

Tudo fica mais contraditório quando sabemos que, pouco tempo atrás, o Papa recebeu uma carta de religiosos e padres negros, que questionavam entre outras coisas a questão das nomeações episcopais. Francisco inclusive respondeu a carta e sua palavras se tornaram públicas. Soa estranho uma nomeação importante com essa suspeição de racismo religioso logo após esse colóquio.

De toda maneira, os eventos recentes trazem essa questão delicada do processo de escolha dos bispos, e de como o Povo de Deus é posto de lado nesse tema tão delicado. Muito pouco sabemos quais são os meandros e como chegam ao Papa os nomes pré-selecionados ao episcopado. Olhando o perfil de certos indicados, pode-se ter a impressão que Francisco está distante do Brasil.

De toda a forma, o campo conservador se rearticula, a nomeação para Brasília é uma vitória deste segmento, após algumas derrotas significativas, como a substituição ocorrida em Salvador. Essa articulação envolveu a nunciatura apostólica (só o tempo dirá que papel jogará o novo Núncio) e possivelmente passa pela secretaria da Congregação do Bispos – dicastério romano responsável por apresentar uma lista tríplice de nomes para o Papa escolher um bispo.

Se Francisco quer contar com o Brasil para as reformas que deseja, é preciso que opere mudanças. É urgente que se tenham prepostos mais alinhados com o Bispo de Roma a frente da “máquina de fazer bispos”.  Senão, os opositores do Papa se sentirão cada vez mais fortalecidos. Quem sabe até para disputar a presidência da CNBB em futuro próximo.

O triste de todo esse jogo de poder é ver triunfar a ambição e o carreirismo em um tempo que se faz tão necessário ter profetas a serviço do Reino portando báculo, usando mitra e conduzindo o Povo de Deus. Em 18/10 um colunista de importante jornal de circulação nacional estranhava o silêncio da cúpula da Igreja no Brasil nesse grave momento de nossa história.

Por outro lado, cabe destacar as iniciativas corajosas que testemunhamos ultimamente. A Carta ao Povo de Deus, assinada por mais de 150 bispos é um belo exemplo, que nada deixa a desejar a figuras históricas do episcopado brasileiro, como Hélder Câmara, Pedro Casaldáliga e Paulo Evaristo Arns.

Finalmente, é preciso dizer que o carreirismo em nada é compatível com a mensagem do Evangelho, tampouco com os apelos a uma conversão pastoral proposta pelo Papa. O debate sobre a escolha e a nomeação dos bispos deve ser travado em sintonia com a ideia de sinodalidade que foi objeto de tanta reflexão no Sínodo para a Amazônia.

Sem esse pressuposto, corremos o risco de cairmos na tentação de apenas discutir nomes, sem pensarmos em um projeto de Igreja. Isso é fundamental para que a Igreja supere a mediocridade reinante neste momento. E que possamos caminhar para um catolicismo onde tenhamos cada vez mais bispos “com o cheiro das ovelhas”...

*Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor. Atua no Movimento Fé e Política

A escola católica na pandemia


 A escola católica na pandemia: crise e contradição?

Por Jorge Alexandre Alves*

O retorno das aulas presenciais durante a pandemia nas escolas privadas mobilizou discussões em todo o Brasil. Aqui no Rio de Janeiro, mal houve o retorno, já nos deparamos com casos de Covid-19 em tradicionais colégios da cidade. Ao que parece, os tão propalados protocolos não serão suficientes para evitar a transmissão do vírus.

Isso tudo parece estar tão fora de sintonia com as pegadas de Jesus... O sentido que a mensagem de Seu anúncio propõe deveria indicar outra direção, quando pensamos em educação católica. Ainda mais quando o Papa Francisco nos presenteia com uma encíclica, Fratelli Tutti, onde as críticas ao neoliberalismo são tão contundentes.

É um grande contratestemunho para quem deveria nortear suas ações no Evangelho. A adoção de estratégias do universo corporativo-empresarial tem sido a tônica da atuação de muitas redes de educação mantidas pelas congregações religiosas; e reforça uma visão neoliberal de ensino e precariza a atividade docente. Está na contramão do legado de uma educação evangélico-libertadora constituída nos anos 80 e 90. E que parece hoje ter sido esquecida. 

Também há que se apontar a omissão nossa, do campo progressista católico, nesse momento. Somos tão críticos em relação as mazelas neoliberais, aos desmandos dos atuais donos do poder. Também somos incansáveis na denúncia do fundamentalismo religioso e do ultraconservadorismo na Igreja.  Mas nos omitimos diante das contradições da educação católica. 

É esse o preço a ser pago para se obter recursos — fundamentais, diga-se — para as missões religiosas e os projetos sociais tão necessários em tempos de monstruosa exclusão?  Nisso reside a barreira impeditiva do profetismo nas instituições de ensino católicas? Sem mudanças estruturais, todo o resto, por mais nobres que sejam as intenções no campo da promoção humana e cristã, corre sério risco de se reduzir a "enxugar gelo". 

A história poderá, no futuro, ser implacável ao cobrar essa conta das escolas católicas. Pois adotar modelos empresariais não é garantia nenhuma de manutenção em logo prazo das instituições de ensino. Ao contrário, em certos contextos, a organização em "redes" em nada se parece com as redes populares estabelecidas pelo movimentos sociais. 

Talvez os gestores da educação formal católica devessem ter a humildade de aprender o sentido de rede assumido na educação popular. O que se vê em certos sistemas católicos de ensino está muito longe de ser uma rede de fato, mas bem mais próximo de ser uma pirâmide, onde o topo decide, controla no melhor estilo foucaultiano (Vigiar e Punir) e a base apenas obedece e executa. Em nada se parece com a sinodalidade proposta pelo Papa Francisco. 

Realidades e contextos locais são embotados e reprimidos, e vozes questionadoras são silenciadas. Há um grau de opressão simbólica imensa que se acentua quanto mais o canto da sereia do mundo corporativo ecoa em uma escola católica através de conceitos que viram moda no ensino. É o que acontece hoje com o tal empreendedorismo, por exemplo. 

Critica-se tanto o carreirismo clerical, mas na educação católica encontramos muito fortemente o carreirismo leigo, em uma competição, por vezes agressiva, por postos de coordenação ou simplesmente por maior proximidade com religiosos. Faz-se de tudo para “aparecer bem na foto” diante de um padre. E por vezes, isso é alimentado nas próprias instituições, como estratégia de controle. E a construção do Reino de Deus vai ficando negligenciada e relegada a meros discursos nas “formações”.

Infelizmente, a pandemia tornou mais evidente essas contradições todas do mundo da Educação Católica. Isso produz um conservadorismo muitas vezes travestido de inovação ou justificado pelo pragmatismo dos números das finanças. Torna-se difícil questioná-lo. Todo mundo é muito dono de si nesse meio.

Mas a educação católica vai passar pelos mesmos questionamentos que hoje o Papa faz em relação à economia? Francisco desejava fazer esse debate, mas a pandemia veio e postergou tão importante decisão. Mas se internamente a Igreja não fizer essa avaliação como faz em outras áreas, a sociedade a fará. Possivelmente sem a generosidade considerada ideal.

Se as escolas católicas querem se colocar em sintonia com a “Igreja em saída” proposta pelo Papa Francisco, talvez devesse começar a olhar para dentro de si e fazer um profundo exame de consciência institucional. Em seguida, não calar as vozes proféticas, cada vez menos frequentes, que ainda creem na educação católica enquanto projeto libertador.

E, finalmente, se questionar profundamente se suas opções gerenciais, se suas “redes” estão em sintonia com aquelas que eram jogadas no Mar da Galileia pelos amigos de um certo judeu marginal oriundo de uma favela chamada Nazaré. Não é hora de escutar mais atentamente o chamado “sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens” (Mc 1, 17), feito a Simão e André?

*Jorge Alexandre Alves é católico. Sociólogo, professor da Educação Básica e mestre em Educação pela UFRJ. E atua há mais de 20 anos na educação católica.

O Vídeo do Brasil Paralelo


O VÍDEO DO BRASIL PARALELO
Por Jorge Alexandre Alves*

Ontem saiu o tão falado vídeo da reunião de 22/04 do Conselho de Ministros do Governo Bolsonaro. Teríamos conhecimento das provas indicadas pelo ex-ministro Sérgio Moro a respeito de supostos crimes envolvendo o "mito". O dito audiovisual representaria a "bala de prata" atirada pelo "marreco" de Maringá no peito de seu antigo aliado, o Capitão Cloroquina, sepultando de vez o mandato do presidente Boso. 


Havia uma expectativa – alimentada pela imprensa  que o registro audiovisual da reunião de abril representasse uma hecatombe política capaz de abalar o presidente da república. Todavia, o vídeo em si não trouxe nenhuma novidade. A divulgação do material por parte do Ministro Celso de Mello expôs algo que todos já tínhamos visto anteriormente a respeito do chefe do Executivo e de seus ministros mais caricatos.

Se o vídeo era para ser a prova cabal de um crime, mais uma vez se demonstrou que Sérgio Moro não é um perito no assunto. Ao contrário, o "marreco" parece ser muito fraquinho na matéria. O que deveriam ser contundentes evidências – claras e explícitas  acerca dos desvios de Jair Bolsonaro, estavam muito mais para "conversa de Candinha" ou futricas de pé-sujo em uma esquina de subúrbio.

As falas da reunião são graves, sem dúvida. Revelam atitudes nada condizentes com o exercício da presidência da República, sobretudo quando o país está afundado em crises. Mas as ditas "provas" do ex-juiz são, no máximo, indícios merecedores de investigação. Não será surpresa se a investigação for arquivada, deixando Moro com cara de marreco, com o mico na mão.

Bem mais sério é o presidente afirmar a vontade de armar a população. Nas entrelinhas de uma suposta defesa da democracia foi inoculado o vírus da tirania. Bolsonaro deixou explícito que deseja ver sangue derramado. Ele quer salvo conduto para armar suas milícias para uma eventual guerra civil.

Na verdade, tratou-se de uma reunião duplamente ordinária. Primeiro, porque todo e qualquer governo faz reuniões regulares com o conjunto de seus ministros.  Mas é ordinária também porque, ao analisarmos as expressões, o trato e o uso das palavras, constatamos tragicamente que os responsáveis por decidir os destinos da República constituem um bando de ordinários.

O que o vídeo de 22 de Abril revelou foi uma mistura de reunião dos Irmãos Metralha com a Família Adams, onde a ministra Damares conseguiu a proeza de ser a nota bizarra em um convescoste de bizarros. O Jesus da ministra deve ter fugido de volta para a sua goiabeira de origem porque nem "Ele" deve ter aguentado tanta boçalidade junta. O choque tomado pela opinião pública deve-se à constatação que aquilo que se tornou público por conta de uma decisão judicial deve ser rotina em encontros dessa natureza.

Para aqueles que enxergam a natureza sociopata do presidente, fica mais uma vez acentuado o perigo que ele representa para as instituições republicanas. O mandatário se aproveita da tragédia humanitária causada pela Covid-19 em meio à uma gravíssima crise econômica – para produzir crise política. Sustenta-se no caos social que ele mesmo provoca, como se já não bastasse todo o resto.

Obviamente, o conteúdo do vídeo deixa os mais sensíveis escandalizados, a desfaçatez de alguns ministros causa indignação e ficamos estarrecidos com a verborragia chula usada durante a reunião. Mas não temos porque nos espantar com conteúdo. Talvez nos assuste a forma despudorada. Entretanto, a essência que norteou as falas de 22/04 está presente nos discursos e nas narrativas criadas no “Bolsonistão” desde que o “Messias” se tornou um candidato viável do ponto de vista eleitoral.

Talvez o material tornado público pelo STF assombre porque seu conteúdo lamentável nos apresentou o bolsonarismo no “atacado”. Ocorre que o país tem lidado com essa excrescência em doses menores, com aqueles personagens deprimentes se manifestando no varejo: Um discurso de ódio aqui, um pronunciamento agressivo ali, uma botinada nos adversários acolá... Todos juntos, de uma só vez, exibindo coletivamente o pior de cada um, somente em um evento como uma reunião do Conselho de Ministros.

Em meio ao festival de besteiras que assola o país constituído pelas intervenções dos veneráveis ministros e do presidente, pode-se destacar quatro aspectos dos mais lastimáveis. O primeiro deles consiste no evidente despautério presente na fala do ministro (ou seria sinistro?) da Educação, Abraham Weintraub. Evidenciou um destempero, exibindo um misto de agressividade, preconceitos e paranoias cuja lógica não encontramos paralelo nem no anticomunismo dos tempos da Guerra Fria.

O segundo elemento que chamou a atenção foi o oportunismo do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales. Ele lembrou que o país inteiro se volta para a pandemia, dando uma “tranquilidade” (então o drama de uma nação inteira acalma a vida de seus dirigentes?) ao governo. Essa “distração” se converteria em oportunidade para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento” na área ambiental. Ou seja, enquanto o povo adoece e morre, o governo deve aproveitar para acabar com toda e qualquer proteção ao meio ambiente.

O terceiro aspecto está nas falas do ministro Paulo Guedes, da Economia. Em princípio o aprofundamento de uma crise econômica extremamente severa não deveria agradar nem mesmo ao Grande Capital. Porém, nossa situação já entrou naquele estágio de retração econômica na qual até a lucratividade do rentismo começa a ser afetada, a ponto de economistas liberais questionarem a eficiência do uso de medidas neoliberais.

Por outro lado, intervenção do “Posto Ipiranga” de Bolsonaro ainda continua centrada em uma crítica severa do desenvolvimentismo. Logo, afirmar que o Banco do Brasil deve ser privatizado (“tem que vender a p#@$*orra do Banco do Brasil!”) deve soar com música para segmentos da alta burguesia como o clã bancário, parcelas do empresariado e também para setores da grande mídia. Todos irmanados em suas posições liberais.

 O último elemento que mereceu destaque foi o comportamento do ministro-chefe da Casa Civil durante as colocações do presidente. Elas sempre se seguiam ao aceno positivo com a cabeça sinalizando consentimento, evidenciando a aceitação pelo General Braga Netto ao conteúdo das sofríveis alocuções do mandatário. Ao que parece, foi desmontada a crença daqueles que, lá na pelos idos de abril, acreditavam existir uma tentativa de emparedamento do presidente pelas Forças Armadas, com o objetivo de conter as ações destemperadas do Chefe de Governo. Se algo do gênero existiu com a nomeação do ex-interventor do Rio de Janeiro, já foi revertido.

Fato é que não há bombeiros ou poder moderador que controle os gestos públicos de Bolsonaro. Podemos então supor que todos eles são ideologicamente muito parecidos. E se não há sinergia ideológica que possa unir os generais ao bolsonarismo, há pelo menos uma aliança tácita construída por conveniência (quase 3 mil militares estão desviados para cargos no governo) e pela manutenção de privilégios da caserna.

Finalmente, há um elemento perverso. Em 22/04 o Brasil já vivia tragédia causada pela pandemia. O país já chorava por mais de 2740 mortos e dezenas de milhares de pessoas acometidas pelo Corona vírus.  E o sistema de saúde já começava a dar sinais de colapso em várias cidades e regiões do país.

Apesar de tudo, a reunião do Conselho de Ministros é reveladora de uma faceta aterrorizante. Em nenhum momento do vídeo foi visto uma preocupação que fosse em combater a Covid-19. Aqueles vetustos representantes dos “homens de bem” deste país parecem viver em uma realidade paralela, em um Brasil paralelo onde somente a economia interessa.

A pandemia que assola a população é mero infortúnio. Quando muito, uma oportunidade de ocasião. Enfim, nominar aquela malfadada congregação ministerial de circo dos horrores talvez possa soar como elogio.

*Jorge Alexandre Alves é Sociólogo, Professor da Educação Básica e participa do Movimento Fé  e Política.

PANDEMIA, LUTO E RESPONSABILIDADE


PANDEMIA, LUTO E RESPONSABILIDADE
Por Jorge Alexandre Alves


Ontem a Covid-19 levou um amigo de infância. Pessoas estimadas relatam a perda de seus queridos. Aqueles conhecidos pelas funções que ocupam estão em situação grave nos hospitais.

Mais dia, menos dia teremos pessoas muito próximas — alguns entre nós já vivem essa trágica situação — doentes. Cada vez mais a crônica de uma tragédia anunciada se torna fato consumado.

Parece que chegamos ao momento em que a pandemia transforma as cada vez mais elevadas estatísticas de doentes e mortos em rostos concretos, gente de carne e osso, pessoas a quem amávamos.

Quem se vai deixa filhos e netos, os parentes ficam inconsoláveis. Nessa hora derradeira, divergências políticas de nada valem porque não trarão essas pessoas de volta. O vírus não escolhe ideologia, cor, religião ou classe social.

Se há alguma seleção nessa desgraça, ela ocorre pelo cuidado ou não que temos ou que podemos ter. Para a maioria dos brasileiros, o isolamento necessário para sobreviver não é uma possibilidade.

As autoridades pouco fazem para socorrer a população mais pobre. E quando o fazem, demoram tanto, criam tantas dificuldades que acabam expondo mais ainda essas pessoas.
As filas na Caixa Econômica e na Receita Federal não me deixam mentir.

Quem se expõe e rompe seu distanciamento social, o faz por necessidade, por convicção, por irresponsabilidade, ignorância ou por sadismo. De uma forma ou de outra, acabarão por contaminar outros tantos que estão nas suas casas, as vezes em situação de extrema necessidade.

Essa gente pode estar cavando sua própria cova rasa ou a de seus parentes. E se, por acaso, venham a se dar conta da gravidade do que fazem, talvez seja tarde mais para reparar o erro.

Diante de tamanha calamidade, é estarrecedor que autoridades finjam que nada está acontecendo. Prefeitos fecham os olhos para as aglomerações ou autorizem o comércio a abrir as portas indiscriminadamente.

Desconfio que estudantes e docentes serão obrigados a retornar as escolas prematuramente. Não é impossível pensar que isso poderá ocorrer em meio a expansão de mortes e do colapso do sistema de saúde. Aceitarão passivamente?

É muito triste pensar na ignorância, no egoísmo e na sociopatia de tanta gente que se mete a ir às ruas exigir abertura de lojas ou a volta da ditadura. Que fazem buzinaço na porta de hospitais. E dá enorme raiva ver o presidente se comportando como regente dessa orquestra de imbecis.

Os tempos estão cada vez mais sombrios. As próximas noites serão ainda mais escuras. Entraremos talvez numa condição de luto coletivo porque todos podem ter que vir a enterrar uma pessoa amada.

Impossível não pensar nos 57 milhões de votos que elegeu quem hoje brinca com a vida do Brasil e dos brasileiros. Tornaram-se um pouco cúmplices da desgraça que nos abate hoje. São causadores indiretos desse gigantesco "ai" de dor que começamos a dar.

Alguns se arrependeram, outros estão constrangidos e tem gente que não tinha dimensão do que estava por vir. Pior é que, apesar de tudo, ainda tem 30% por aí batendo palma para a sociopatia reinante. O que dizer?

Como será encarar essas pessoas quando tudo isso passar? Teremos um país arrasado pela doença, arruinado pela economia e muito mais dividido politicamente.

Será possível pensar em coletividade depois de tanta desgraça? Será possível confraternizar com estes que promoveram o ódio e a morte? O que acontecerá com nossas vidas e com o Brasil?

BOM DIA, SQN!



BOM DIA... SQN!

Por Jorge Alexandre Alves*

Bom dia para vc que pensa que, por pagar escola, deve ter o "serviço" de qualquer jeito e a todo custo, mesmo que prejudique a saúde mental de seus filhos.

Bom dia para aqueles que pouco se importam com a exclusão tecnológica dos estudantes e nem com a exploração digital do magistério. 

Bom dia aos gestores públicos em educação que vivem de "lives" e pensam apenas em sua autopromoção.

Bom dia para quem acha ser possível a crianças e adolescentes e aprender algo significativo em meio ao pandemônio que vivemos.

Bom dia a você que está preocupado com conteúdos como se isso fosse a coisa mais importante do mundo.

Bom dia aos colegas do magistério que já se auto impõem a própria exploração por crença messiânica na salvação das escolas.

Bom dia a quem vê na doença e na crise uma oportunidade em expandir seus negócios em plataformas on line na educação.

Bom dia a quem acha possível transmigrar horário e rotinas escolares para ambientes remotos como se tais procedimentos pudessem ser mantidos nesse contexto.

Bom dia para quem chantageia educadores com a manutenção dos empregos às custas da precarização da atividade docente e do teletrabalho.

Bom dia para quem acha que professorxs não querem trabalhar pq não fazem vídeos com conteúdos.

Bom dia para quem será responsável ou cúmplice pelo adoecimento de professores e estudantes.

E finalmente, um único e verdadeiro BOM DIA aos estudantes que sempre nos apoiam, aos pais que percebem o verdadeiro papel do ensino nesse momento delicado; e aos docentes que, em meio a tudo isso, não perdem sua dignidade e lutam por uma educação cidadã e verdadeiramente libertadora.

*Jorge Alexandre Alves é sociólogo, professor e mestre em Educação.

OBS: Publicado originalmente na página pessoal do Facebook do autor.


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