A escola católica na pandemia: crise e contradição?
Por Jorge Alexandre Alves*
O retorno das aulas presenciais durante a pandemia nas escolas privadas mobilizou discussões em todo o Brasil. Aqui no Rio de Janeiro, mal houve o retorno, já nos deparamos com casos de Covid-19 em tradicionais colégios da cidade. Ao que parece, os tão propalados protocolos não serão suficientes para evitar a transmissão do vírus.
Isso tudo parece estar tão fora de sintonia com as pegadas de Jesus... O sentido que a mensagem de Seu anúncio propõe deveria indicar outra direção, quando pensamos em educação católica. Ainda mais quando o Papa Francisco nos presenteia com uma encíclica, Fratelli Tutti, onde as críticas ao neoliberalismo são tão contundentes.
É um grande contratestemunho para quem deveria nortear suas ações no Evangelho. A adoção de estratégias do universo corporativo-empresarial tem sido a tônica da atuação de muitas redes de educação mantidas pelas congregações religiosas; e reforça uma visão neoliberal de ensino e precariza a atividade docente. Está na contramão do legado de uma educação evangélico-libertadora constituída nos anos 80 e 90. E que parece hoje ter sido esquecida.
Também há que se apontar a omissão nossa, do campo progressista católico, nesse momento. Somos tão críticos em relação as mazelas neoliberais, aos desmandos dos atuais donos do poder. Também somos incansáveis na denúncia do fundamentalismo religioso e do ultraconservadorismo na Igreja. Mas nos omitimos diante das contradições da educação católica.
É esse o preço a ser pago para se obter recursos — fundamentais, diga-se — para as missões religiosas e os projetos sociais tão necessários em tempos de monstruosa exclusão? Nisso reside a barreira impeditiva do profetismo nas instituições de ensino católicas? Sem mudanças estruturais, todo o resto, por mais nobres que sejam as intenções no campo da promoção humana e cristã, corre sério risco de se reduzir a "enxugar gelo".
A história poderá, no futuro, ser implacável ao cobrar essa conta das escolas católicas. Pois adotar modelos empresariais não é garantia nenhuma de manutenção em logo prazo das instituições de ensino. Ao contrário, em certos contextos, a organização em "redes" em nada se parece com as redes populares estabelecidas pelo movimentos sociais.
Talvez os gestores da educação formal católica devessem ter a humildade de aprender o sentido de rede assumido na educação popular. O que se vê em certos sistemas católicos de ensino está muito longe de ser uma rede de fato, mas bem mais próximo de ser uma pirâmide, onde o topo decide, controla no melhor estilo foucaultiano (Vigiar e Punir) e a base apenas obedece e executa. Em nada se parece com a sinodalidade proposta pelo Papa Francisco.
Realidades e contextos locais são embotados e reprimidos, e vozes questionadoras são silenciadas. Há um grau de opressão simbólica imensa que se acentua quanto mais o canto da sereia do mundo corporativo ecoa em uma escola católica através de conceitos que viram moda no ensino. É o que acontece hoje com o tal empreendedorismo, por exemplo.
Critica-se tanto o carreirismo clerical, mas na educação católica encontramos muito fortemente o carreirismo leigo, em uma competição, por vezes agressiva, por postos de coordenação ou simplesmente por maior proximidade com religiosos. Faz-se de tudo para “aparecer bem na foto” diante de um padre. E por vezes, isso é alimentado nas próprias instituições, como estratégia de controle. E a construção do Reino de Deus vai ficando negligenciada e relegada a meros discursos nas “formações”.
Infelizmente, a pandemia tornou mais evidente essas contradições todas do mundo da Educação Católica. Isso produz um conservadorismo muitas vezes travestido de inovação ou justificado pelo pragmatismo dos números das finanças. Torna-se difícil questioná-lo. Todo mundo é muito dono de si nesse meio.
Mas a educação católica vai passar pelos mesmos questionamentos que hoje o Papa faz em relação à economia? Francisco desejava fazer esse debate, mas a pandemia veio e postergou tão importante decisão. Mas se internamente a Igreja não fizer essa avaliação como faz em outras áreas, a sociedade a fará. Possivelmente sem a generosidade considerada ideal.
Se as escolas católicas querem se colocar em sintonia com a “Igreja em saída” proposta pelo Papa Francisco, talvez devesse começar a olhar para dentro de si e fazer um profundo exame de consciência institucional. Em seguida, não calar as vozes proféticas, cada vez menos frequentes, que ainda creem na educação católica enquanto projeto libertador.
E, finalmente, se questionar profundamente se suas opções gerenciais, se suas “redes” estão em sintonia com aquelas que eram jogadas no Mar da Galileia pelos amigos de um certo judeu marginal oriundo de uma favela chamada Nazaré. Não é hora de escutar mais atentamente o chamado “sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens” (Mc 1, 17), feito a Simão e André?
*Jorge Alexandre Alves é católico. Sociólogo, professor da Educação Básica e mestre em Educação pela UFRJ. E atua há mais de 20 anos na educação católica.

Nenhum comentário:
Postar um comentário