PANDEMIA, LUTO E RESPONSABILIDADE


PANDEMIA, LUTO E RESPONSABILIDADE
Por Jorge Alexandre Alves


Ontem a Covid-19 levou um amigo de infância. Pessoas estimadas relatam a perda de seus queridos. Aqueles conhecidos pelas funções que ocupam estão em situação grave nos hospitais.

Mais dia, menos dia teremos pessoas muito próximas — alguns entre nós já vivem essa trágica situação — doentes. Cada vez mais a crônica de uma tragédia anunciada se torna fato consumado.

Parece que chegamos ao momento em que a pandemia transforma as cada vez mais elevadas estatísticas de doentes e mortos em rostos concretos, gente de carne e osso, pessoas a quem amávamos.

Quem se vai deixa filhos e netos, os parentes ficam inconsoláveis. Nessa hora derradeira, divergências políticas de nada valem porque não trarão essas pessoas de volta. O vírus não escolhe ideologia, cor, religião ou classe social.

Se há alguma seleção nessa desgraça, ela ocorre pelo cuidado ou não que temos ou que podemos ter. Para a maioria dos brasileiros, o isolamento necessário para sobreviver não é uma possibilidade.

As autoridades pouco fazem para socorrer a população mais pobre. E quando o fazem, demoram tanto, criam tantas dificuldades que acabam expondo mais ainda essas pessoas.
As filas na Caixa Econômica e na Receita Federal não me deixam mentir.

Quem se expõe e rompe seu distanciamento social, o faz por necessidade, por convicção, por irresponsabilidade, ignorância ou por sadismo. De uma forma ou de outra, acabarão por contaminar outros tantos que estão nas suas casas, as vezes em situação de extrema necessidade.

Essa gente pode estar cavando sua própria cova rasa ou a de seus parentes. E se, por acaso, venham a se dar conta da gravidade do que fazem, talvez seja tarde mais para reparar o erro.

Diante de tamanha calamidade, é estarrecedor que autoridades finjam que nada está acontecendo. Prefeitos fecham os olhos para as aglomerações ou autorizem o comércio a abrir as portas indiscriminadamente.

Desconfio que estudantes e docentes serão obrigados a retornar as escolas prematuramente. Não é impossível pensar que isso poderá ocorrer em meio a expansão de mortes e do colapso do sistema de saúde. Aceitarão passivamente?

É muito triste pensar na ignorância, no egoísmo e na sociopatia de tanta gente que se mete a ir às ruas exigir abertura de lojas ou a volta da ditadura. Que fazem buzinaço na porta de hospitais. E dá enorme raiva ver o presidente se comportando como regente dessa orquestra de imbecis.

Os tempos estão cada vez mais sombrios. As próximas noites serão ainda mais escuras. Entraremos talvez numa condição de luto coletivo porque todos podem ter que vir a enterrar uma pessoa amada.

Impossível não pensar nos 57 milhões de votos que elegeu quem hoje brinca com a vida do Brasil e dos brasileiros. Tornaram-se um pouco cúmplices da desgraça que nos abate hoje. São causadores indiretos desse gigantesco "ai" de dor que começamos a dar.

Alguns se arrependeram, outros estão constrangidos e tem gente que não tinha dimensão do que estava por vir. Pior é que, apesar de tudo, ainda tem 30% por aí batendo palma para a sociopatia reinante. O que dizer?

Como será encarar essas pessoas quando tudo isso passar? Teremos um país arrasado pela doença, arruinado pela economia e muito mais dividido politicamente.

Será possível pensar em coletividade depois de tanta desgraça? Será possível confraternizar com estes que promoveram o ódio e a morte? O que acontecerá com nossas vidas e com o Brasil?

BOM DIA, SQN!



BOM DIA... SQN!

Por Jorge Alexandre Alves*

Bom dia para vc que pensa que, por pagar escola, deve ter o "serviço" de qualquer jeito e a todo custo, mesmo que prejudique a saúde mental de seus filhos.

Bom dia para aqueles que pouco se importam com a exclusão tecnológica dos estudantes e nem com a exploração digital do magistério. 

Bom dia aos gestores públicos em educação que vivem de "lives" e pensam apenas em sua autopromoção.

Bom dia para quem acha ser possível a crianças e adolescentes e aprender algo significativo em meio ao pandemônio que vivemos.

Bom dia a você que está preocupado com conteúdos como se isso fosse a coisa mais importante do mundo.

Bom dia aos colegas do magistério que já se auto impõem a própria exploração por crença messiânica na salvação das escolas.

Bom dia a quem vê na doença e na crise uma oportunidade em expandir seus negócios em plataformas on line na educação.

Bom dia a quem acha possível transmigrar horário e rotinas escolares para ambientes remotos como se tais procedimentos pudessem ser mantidos nesse contexto.

Bom dia para quem chantageia educadores com a manutenção dos empregos às custas da precarização da atividade docente e do teletrabalho.

Bom dia para quem acha que professorxs não querem trabalhar pq não fazem vídeos com conteúdos.

Bom dia para quem será responsável ou cúmplice pelo adoecimento de professores e estudantes.

E finalmente, um único e verdadeiro BOM DIA aos estudantes que sempre nos apoiam, aos pais que percebem o verdadeiro papel do ensino nesse momento delicado; e aos docentes que, em meio a tudo isso, não perdem sua dignidade e lutam por uma educação cidadã e verdadeiramente libertadora.

*Jorge Alexandre Alves é sociólogo, professor e mestre em Educação.

OBS: Publicado originalmente na página pessoal do Facebook do autor.


VOCÊ SABE O QUE É QUARTEIRIZAÇÃO?


VOCÊ SABE O QUE É QUARTEIRIZAÇÃO?
Por Jorge Alexandre Alves*

Em meio às notícias sobre a troca de comando no Ministério da Saúde, os cariocas descobriram que o poder público da cidade do Rio de Janeiro pratica a quarteirização dos serviços de saúde. Mas o que é isso?  Parte rede de atendimento básico de saúde está sob a gestão das malfadadas OS's (organizações sociais) da saúde ligadas a empresas que administram hospitais e clínicas privadas.

Explicando melhor, a prefeitura usa os recursos públicos para construir unidades de saúde e estabelece um sistema de atendimento à população. Nos últimos 25 anos, várias prefeituras e governos estaduais têm optado em selecionar empresas de saúde para gerenciar e atender a população. Vale perguntar se é correto que tais “organizações sociais” pertençam a grupos empresariais ligados à rede particular ou às operadoras de planos de saúde.

Se você que me lê for daqui do Rio, pense em um grande hospital particular. É bem possível que os empresários que administram essa unidade de saúde privada sejam donos de OS que controla uma UPA, Clínica da Família ou Hospital... Certos gestores públicos alegam que, nesse modelo, economizam recursos que seriam gastos com funcionalismo público e com licitações para compra de equipamentos, remédios e tudo o mais que uma clínica ou hospital necessita.

Assim, seria menos burocrática a prestação dos serviços públicos de saúde, beneficiando o povo. Então, caberia à prefeitura repassar equipamentos, instalações e recursos financeiros para as organizações sociais. A gestão das unidades, dos insumos e dos recursos humanos caberiam às OS’s de saúde.

Uma maravilha para todos, só que não...  Basta perguntar sobre as condições das UPA’s e hospitais para alguém do povão, que não pode pagar por planos de saúde.

O que se estabeleceu foi uma coisa muito comum na iniciativa privada em geral, chamada de terceirização. Paga-se a um “terceiro” pelo pacote completo de prestação de serviços: Da administração ao pagamento de encargos trabalhistas, passando pelo atendimento à população. A experiência mostra que apenas empresários se beneficiam disso.

Trabalhadores tem suas condições de trabalho muito pioradas, além de salário bem menores.  E quando terceirizam um serviço púbico essencial à população?  Na prática, o que se pratica é uma espécie de privatização disfarçada da rede pública de saúde. E os efeitos para a população são terríveis, com piora visível dos serviços médicos.

A todo momento vemos os hospitais em condições deploráveis, superlotados e sem insumos básicos para fazer sequer um curativo em um arranhão. Funcionários que não recebem benefícios previstos em lei ou tem seus rendimentos pagos sistematicamente atrasados. No começo do ano, o prefeito “bispo” Crivella prometeu mudanças na gestão das unidades de saúde do município. Tudo para o benefício do cidadão, com economia dos preciosos recursos públicos, dizia ele.

Uma OS da prefeitura passaria a administrar mais de 100 unidades médicas, até então geridas por uma organização não-governamental (Ong) chamada Viva Rio.  A transição foi atabalhoada, e amplamente noticiada pela imprensa. Trabalhadores ficaram em situação precária. O cidadão que necessita de atendimento ficou à míngua.

Aí é que entra a quarteirização. A tal OS da prefeitura contratou uma empresa prestadora de serviços (ou seja, uma terceirizadora) em saúde para contratar profissionais de saúde. Em outras palavras, o poder público está promovendo a terceirização da terceirização. Isso é o que se chama de quarteirização.

Especialistas em saúde pública afirmam que o ideal seria que o atendimento básico à população fosse feito por servidores públicos de carreira.  Porém, a prefeitura vai no sentido oposto, embora tenha prometido realizar concurso público. Além da piora no atendimento à população, a quarteirização esconde algo criminoso que vem sendo feito com os trabalhadores em saúde. Os profissionais de saúde foram demitidos e a empresa “quarteirizadora” ofereceu a essas pessoas uma nova modalidade de contrato.

Por esse modelo de contratação, os trabalhadores passam a ser sócios da empresa, e receberiam “dividendos” por essa sociedade. Mas estão submetidos a uma escala, têm um coordenador e são descontados em caso de falta. Isso agora se chama sociedade? Na verdade, essa “sociedade’ é uma forma de retirar direitos trabalhistas dos profissionais de saúde. Os “sócios”, como tal, não recebem férias, 13º salário, licença maternidade... E se ficarem doentes?

Mas o escândalo da situação não se resume a isso.  Esse tipo de situação é legal, embora profundamente imoral. Efeito da Reforma Trabalhista de 2018... Parabéns aos envolvidos.

Isso não é tudo. Para além da exploração descarada da mão-de-obra e dos aspectos éticos, quem se beneficia disso? O que dizer de um empresário que usa desse expediente cretino para lucrar? A empresa “quarteirizadora” se chama “Doctor Vip”. Pertence a um suplente de deputado cujo partido (PSL) apoia o prefeito Crivella. E este, segundo o noticiário de TV, recomendou a contratação dessa empresa aos responsáveis pelas OS’s que administram a rede de saúde da cidade do Rio de Janeiro.

E assim que se cuida das pessoas? Se, em situações “normais”, se faz coisa do tipo com trabalhadores da saúde e a população. O que poderemos esperar nesse contexto de Covid-19?

Em meio a uma pandemia, é triste saber que esses são os responsáveis em proteger a população... Infelizmente, o poço carioca parece que não tem fundo...

Mas o bispo-prefeito e seus asseclas não são fizeram isso tudo sozinhos. Eleitores, empresários, imprensa e autoridades religiosas são cúmplices dessa tramoia e corresponsáveis pela tragédia que se avizinha... Assumirão publicamente sua culpa?

*Jorge Alexandre Alves é carioca, morador do Rio de Janeiro e está até agora querendo saber onde está o cuidado com as pessoas...


E Bolsonaro demitiu Mandetta... E agora, Boso?

Bolsonaro demitiu Mandetta.

Pelo discurso, tá impondo a flexibilização da quarentena em médio prazo. Se fazendo de vítima, transfere a responsabilidade das futuras mortes ou da crise econômica para governadores, prefeitos, congresso nacional e o Poder Judiciário.

Nomeou um médico estreitamene vinculado as empresas de saúde, morador da Barra da Tijuca. Provavelmente nunca foi sequer à Gardênia Azul. O Dr Nélson Teich foi da coordenação de saúde da campanha do presidente. Já começou a falar relativizando as informações disponíveis.
Segundo um professor da UFF, é vinculado à medicina privada do Brasil e dos Estados Unidos. Dono de empresas ligadas ao setor, entre elas a Health Care, e proprietário de uma caríssima clínica oncológica na Barra da Tijuca.

Tudo isso, apesar de ter sempre bebido nas tetas da educação pública e gratuita; fez medicina na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e residência em oncologia no SUS.

Entre outras incoerências, o novo ministro não fez sequer menção ao SUS, a não ser como coadjuvante dos serviços privados de saúde. Afirma que economia e saúde não são incompatíveis. Quando começa esse discurso, já sabemos no que vai dar... Ainda mais quando seu chefe é o primeiro a desrespeitar protocolos de saúde e afirmar a primazia da economia sobre a defesa da vida.

Mas tem coisa mais grave. Esse ministro já disse em entrevista que entre escolher investir recursos para salvar um adolescente ou um idoso, é melhor para o país salvar o mais jovem...

Mentiroso, o chefe de governo diz que defende os empregos do povo pobre e simples. Mas emitiu uma medida provisória permitindo empresas de cancelarem contratos de trabalho e autorizou redução de salários. Seu governo propôs inicialmente um auxílio-merreca para os mais vulneráveis e irrisórios R$ 200,00.

Foi somente quando os partidos de esquerda propuseram que o auxílio fosse de um salário-mínimo, e os deputados federais aprovaram R$500 que o presidente aumentou a ajuda para R$600,00. Mesmo assim, fez de tudo para atrasar a lei e os procedimentos para pagar a ajuda as pessoas.

Pela televisão podemos ver as filas no banco e na receita federal para receber o benefício. Provocando aglomerações, expondo a fome as pessoas simples que o presidente julga defender. Por sua vez, liberou R$ 1,3 trilhão para os bancos, sem nenhuma contrapartida.

Bolsonaro afirma defender o povo mais pobre que precisa sair para trabalhar ou procurar emprego... Na verdade, ele defende a parcela mais cretina do empresariado, que se vê como herói por explorar aqueles trabalhadores mais sem formação. E que hoje sai em seus carrões pelas cidades afora pressionando pela reabertura do comércio.

Se essa pandemia já provocava receios em quem tem um mínimo de bom senso, o que será desse país agora? Ainda mais quando existem hordas fanáticas dizendo amém para todos os disparates presidenciais?

Mandetta teria começado a desmantelar o SUS se não fosse a Covid-19. No passado, votou a favor do teto de gastos na saúde e na educação. Era aliado de primeira hora das operadoras de planos de saúde.
Mesmo na pandemia, o Ministério da Saúde jamais estabeleceu um protocolo de notificação para a doença e demorou a implementar um plano de contigência. Sua briga com o presidente tinha um quê de egos em disputa.

Ainda assim, havia algo de razoável na medida do possível para um governo de extrema-direita cujo presidente é um sociopata limítrofe. Agora, pode ser que o país dê um salto no escuro...
No meio da crise, se troca de ministro numa pasta fundamental para a vida dos brasileiros nesse momento. É como se estivéssemos em uma jamanta descendo uma estrada sinuosa, muito perigosa. No meio da descida, troca-se o motorista com o caminhão em movimento numa curva à beira do abismo.

O que será da população brasileira daqui algumas semanas, se o isolamento social for relaxado? Aguentaremos virar um espécie de Equador tamanho família? Esse país virou uma roda viva...

Mais do que nunca, bate aquela sensação pesada de estarmos todos jogados à nossa própria sorte... O que sobrará desta terra depois que isso tudo passar?

CONECTADOS ACIMA DE TUDO, ATIVIDADES EM CIMA DE TODOS


CONECTADOS ACIMA DE TUDO, ATIVIDADES EM CIMA DE TODOS
- Sobre as atividades escolares em tempos de quarentena –
Por Jorge Alexandre Alves*

Passados os primeiros dias de quarentena, estudantes, familiares e professores se viram envolvidos em uma questão importante: Como lidar com as tarefas escolares e com atividades acadêmicas em tempos de pandemia e de distanciamento social? As soluções apresentadas ou impostas dividiram as pessoas e são reveladoras.

De uma maneira geral, os sistemas de ensino fizeram duas opções. No Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II, o IFRJ, o CEFET-RJ – da rede federal de educação básica, técnica e tecnológica - EBTT, anunciaram a suspensão de seus calendários acadêmicos. Também as universidades federais (UFRJ, Uni-Rio, UFFRJ e UFF) e a Uerj fizeram a mesma coisa.

Nessas instituições, as respectivas comunidades escolares entenderam que dadas:
a) as diversas dificuldades dos estudantes em acessarem plataformas “on line”;
b) as questões logísticas das famílias (um só computador para toda a casa, dificuldades de conexão, atividades laborais de pais e responsáveis, ausência de espaço adequado para estudos);
c) as mudanças causadas por severas mudanças na rotina familiar – afinal estamos em confinamento e não em férias – que afetam não apenas estudantes, mas também profissionais da educação e suas famílias;
d) As impossibilidades dos estudantes causadas por situação socioeconômica das famílias dos estudantes.

O melhor que poderiam fazer é suspender seus respectivos calendários acadêmicos, com o compromisso de readequá-los assim que as condições sanitárias permitirem o retorno às aulas. Da mesma forma, os processos seletivos para novos alunos dessas renomadas instituições de ensino também estão adiados até segunda ordem.

Foi a decisão mais sábia nesse momento. A nossa geração vive uma situação inédita, talvez o grande momento histórico de nosso tempo. A forma pela qual sairemos disso é imprevisível. E junto com a pandemia coexiste uma grave crise econômica e uma sensação permanente de caos político provocado pelos desatinos da maior autoridade brasileira. Mas isso é outra história...

A imposição de modalidades escolares online aumenta os riscos de adoecimento de crianças e jovens estudantes pela sobrecarga de atividades remotas. Da mesma maneira com professores. Neste caso, provocado pela enorme pressão para produzir conteúdo remotamente. Coisa que se potencializa em tempos os quais nossas rotinas pessoais estão viradas ao avesso. E parece que isso não foi percebido antecipadamente pela sociedade, muito menos por uma parcela significativa do conjunto dos docentes.

Haveria também a grande chance de as atividades remotas aprofundarem a já abissal desigualdade social na aprendizagem. Estudantes de famílias com mais recursos tecnológicos teriam acesso aos conteúdos virtuais que certamente as famílias mais pobres não poderiam acessar, caso as aulas presenciais fossem simplesmente substituídas por tarefas via plataformas digitais. Mesmo que conteúdos sejam impressos e disponibilizados, isso significa fazer o estudante sair de casa e romper a quarentena para buscar material.

Evidentemente, suspender calendários acadêmicos modificará nossas agendas pessoais, alterará o cronograma de férias e causará impacto em nossas rotinas. Mas será que não ficou evidente nada mais será do mesmo jeito por um tempo? É ilusório acreditar que nosso cotidiano será retomado literalmente como era antes de sermos atingidos por essa pandemia. 

O governo federal desobrigou as escolas a cumprirem os 200 dias letivos previstos na Lei de Diretrizes e Base (LDB). Mesmo mantendo a exigência de cumprir 800 horas anuais no período letivo, ainda assim seria possível cumprir o ano letivo em 160 dias com turnos de 5 horas por dia de aulas, cinco dias na semana. Ou seja, representa dois meses a menos de aulas, quando comparado com os calendários regulares de 200 dias letivos.

Não é o ideal, mas essa redução estava no horizonte de medidas da administração pública desde o começo do isolamento. Portanto, ainda estaríamos nesse período de carência de 40 dias letivos a menos, sem comprometer o término do ano letivo em 2020. Diante desse quadro, por que os sistemas de ensino que optaram por modalidades remotas de ensino não esperaram a decisão sobre o cumprimento do ano letivo?

É nesse contexto que estão postas as contradições sobre as atividades à distância. Elas atravessam contextos familiares e a situação doméstica de cada professor. Passa também pela força ou fraqueza de uma categoria profissional que muitas vezes não se entende como tal ou que pensa apenas em seus interesses mais imediatos. Há o debate pedagógico sobre esse momento da quarentena e seus impactos na vida de estudantes. Finalmente, há que se pensar nos interesses de gestores públicos e das próprias instituições escolares nesse momento.

Dessa forma, estamos diante de uma situação extremamente complexa que não pode ser reduzida simplificações rasas, nem tampouco podemos nos tornar reféns de soluções fáceis. De uma maneira geral, a impressão que se tem é que todo mundo está atirando para todos os lados. Isso passa naturalização – reforçada pelos meios de comunicação - do uso indiscriminado de recursos digitais que permitam algum tipo de conexão entre professores e estudantes.

Nessa perspectiva, a rede privada de ensino e a rede estadual de educação, sob a alçada da SEEDUC-RJ, entenderam que outro deveria ser o caminho. Compreenderam que o melhor a fazer pelos seus discentes seria instituir formas remotas de atividades escolares, de maneira que estudantes não perdessem uma certa rotina de estudos. Essa imposição – sem nenhum tipo de consulta prévia a professores e especialistas no uso dessas tecnologias – é justificada por um discurso quase sentimental em relação a alunos e alunas.

Crianças e adolescentes necessitariam ter uma rotina de estudos, como forma de ocupar seu tempo e também como meio de superar os efeitos psicológicos do afastamento. Por isso a importância de atividades que pudessem dar conta dessas necessidades. Mas esse discurso apelativo esconde outros elementos mais... digamos, pragmáticos.

Antes de tudo há um discurso que naturaliza as práticas impostas ao magistério das redes privada e pública estadual. O que vem sendo feito nas escolas dessas redes é, na verdade, teletrabalho docente com atividades escolares remotas por meios eletrônicos. São formas que muito pouco se parecem com a modalidade de ensino chamada de EaD. Relatos de professores que atuam ou já atuaram com Educação à Distância podem até não achar que esta seja uma modalidade efetiva e propícia para a educação, mas todos são unânimes em destacar que o que vem sendo adotado na rede pública estadual e nas escolas particulares passa longe de ser considerado EaD. Isso aparece no seguinte relato docente:

“Trabalhei na Modalidade SEMIPRESENCIAL durante 7 anos da minha carreira acadêmica, fiz cursos, participei de congressos, se quiserem, podem acessar o meu Lattes.
Fazer vídeo aulas não é EaD, desculpe, mas as propostas das escolas que vi até o momento estão MUITO longe de ser a Educação a Distância que conheço. Tanto das Instituições públicas e privadas onde estudei e trabalhei, não chegava nem perto das propostas que estão dando. E os alunos precisam ser preparados para essa modalidade. Eu trabalhava um semestre INTEIRO para fazer a adaptação dos meus alunos, na Modalidade semipresencial e no uso de ferramentas. (“A” – Docente de Biologia)

No caso das escolas estaduais, cabe questionar as razões que levaram o governo estadual a adotar uma plataforma privada, quando na esfera estadual temos uma conceituada faculdade de Educação na Uerj, e uma instituição especializada em EaD: o Cecierj. Também não há transparência sobre o custo ou quais contrapartidas foram oferecidas à gigante americana da área de internet para a disponibilização de suas ferramentas digitais. Professores e estudantes sequer foram consultados a respeito da cessão de seus dados pessoais para uma empresa privada e que uso ela poderá fazer dessas informações individuais.

Além disso, mobilizar ferramentas eletrônicas, redes digitais e aplicativos de comunicação já é prática bastante disseminada por professores de um modo ou de outros. Todavia, isso por si só não pode ser chamado de Educação à Distância. Sobre essa mesma questão, David Borges, professor de Filosofia da Universidade Federal do Piauí pondera:

Em uma estrutura de ensino à distância pela internet as aulas são gravadas com antecedência e editadas por um profissional do ramo, de forma que o professor possa usar recursos como mapas conceituais, slides e outros auxílios visuais inseridos no meio da explicação sem que haja perda de continuidade ou de ritmo, e de modo que esses auxílios visuais tenham uma qualidade de imagem alta o suficiente e fiquem expostos por tempo o suficiente para que o aluno consiga ver.
 (...) é estupidez dos gestores julgarem que conectar um professor e seus alunos ao mesmo tempo em determinado horário é "ensino à distância", e também é incompetência pedagógica achar que os alunos estão aprendendo de forma adequada. E nem estou entrando no mérito do acesso (alguns alunos simplesmente não possuem os meios necessários para essa modalidade de ensino, ou a conexão de rede fica inconstante e sobrecarregada no horário predeterminado).
(....)EaD exige muito planejamento e uma equipe de profissionais para funcionar, e não apenas um professor bem-intencionado com um notebook. Quando eu trabalhava com isso, tínhamos um câmera, um técnico de som, monitores, um técnico de edição, um artista visual e uma equipe de planejamento pedagógico, além de uma equipe enorme de profissionais de TI. (BORGES, Davi – Ensino à distância não é a mesma coisa que aulas pela internet)

Diante de todas as questões levantadas ainda há uma pergunta crucial a ser feita. Mesmo que todos os estudantes tivessem acesso a esses recursos, será que nesse momento, tal proposta seria o melhor a ser feito em nome da educação?

Há um elemento que passa desapercebido nesse debate em torno do uso dessas ferramentas digitais. Para além das questões educativas, é necessário verificar em que medida isso não faz parte de uma estratégia para estabelecer controles eletrônicos do trabalho do professor. De forma mais visível – ainda que em níveis de pressão e cobrança variáveis – colégios particulares vêm impondo exigências aos docentes que os sobrecarregam e tornam mais estressantes a realização de suas atividades.

Reuniões on-line fora do horário de trabalho, exigência de produção de material audiovisual (são necessários em média 75 minutos entre gravação e edição para produzir uma videoaula de 15 minutos). Essas atividades passam por escrutínio permanente dos pais ou responsáveis e também dos estudantes. Dependendo dos humores das famílias e dos gestores, os professores são submetidos a pressões que, em não poucas situações, se tornam assédio moral. 

Relatos sobre essas tensões aparecem em boa quantidade nas redes digitais e em grupos de aplicativos de mensagens. Analisá-las não é demanda simples e requer tempo. Por isso, essa tarefa – embora necessária e urgente - ficará para outra oportunidade, ainda nessa quarentena

Por sua vez, a SEEDUC ameaça com cortes de ponto e suspensão das horas extras (oficialmente chamadas de GLP – Gratificação por Lotação Provisória). Além disso, insiste em chamar o teletrabalho docente de EaD. Quanto a questão da acessibilidade, relativa à exclusão digital dos estudantes. Para os docentes, mobilizou um conjunto de ferramentas digitais e tutoriais. E só.

Diante desses fatos, a pandemia levanta uma série de elementos para reflexão, que serão refletidos em texto futuro. Oportunamente, trataremos de refletir o comportamento dos docentes em meio a essa situação, e a efetividade das tarefas remotas em termos de aprendizagem. Também será preciso analisar as atitudes dos familiares dos estudantes em meio a esse delicado momento. E, finalmente, a postura das instituições de ensino.

Nesse momento, temos a certeza que, estando ainda numa fase inicial desse distanciamento social, a pressão sobre professores e professoras cresce na mesma velocidade em que aumentam o número de casos da Covid-19 no Brasil. Já não são poucos docentes que apresentam sinais de estresse. Se não começam a adoecer do corpo, adoecem da alma.

O que se passa nas escolas da SEEDUC e na rede privada, de um jeito ou de outro, é reflexo desse momento sombrio que já assolava o país antes da Covid-19. Nas escolas em geral vemos a reprodução do que se passa na sociedade. Muitas vezes se pensa que, em nome dos empregos, pode-se violar todo e qualquer direito do trabalhador.

Logo, ambientes escolares presenciais – que talvez fossem até marcados pela camaradagem e pelo bom convívio – se converteram em espaços digitais tóxicos. Hoje, tais sítios digitais se caracterizam pela cobrança e pela culpabilização dos docentes.  Isso tudo porque o lema da educação infelizmente pode ser definido como “CONECTADOS ACIMA DE TUDO, ATIVIDADES EM CIMA DE TODOS

* Jorge Alexandre Alves é Mestre em Educação pela UFRJ, sociólogo e professor da Rede Federal de Educação Básica, Técnica e Tecnológica, da Rede Estadual de Educação e da rede privada.


Obs: O relato docente não tem o autor revelado por razões éticas.


Referências:

ANDRADE, Caio. EAD em tempos de isolamento social: oito apontamentos críticos. Youtube, 06/04/2020. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=9qcbUX6OpNs. Acesso em: 06/04/2020.

BORGES, Davi. Ensino à distância não é a mesma coisa que aulas pela internet. 2020 [texto disseminado por aplicativo de mensagens].

BRASIL. Medida Provisória nº 934, Estabelece normas excepcionais sobre o ano letivo da educação básica e do ensino superior decorrentes das medidas para enfrentamento da situação de emergência de saúde pública de que trata a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020. Brasília, 2020.

Apresentando o blog...

Queridxs:

Nunca tive vontade de sr blogueiro. Ao contrário, resisti muito em ter um blog. Com o advento das redes sociais e com páginas de instituições já consagradas em meus campos de interesse, achava que meus textos seriam poucos lidos. De uma maneira ou de outra, toda pessoa que escreve e compartilha suas reflexões quer ser lido, fazer as pessoas pensar. Enfim, todo mundo deseja ecoar suas ideias, provocar ideias. Comigo não é diferente.

Mas escrever também é terapêutico para mim. Em tempos difíceis, me ajudou muito a não adoecer. Hoje resolvi dar esse passo por causa disso. Essa pandemia talvez seja o grande fato histórico desse começo de século. Mais, é o maior evento de minha geração. Não passamos por uma guerra, não vivemos um golpe militar ou uma revolução. As marcas dessas semanas ou meses ficarão para sempre em nossa memória, e já está marcando indelevelmente nossas vidas.

Sempre gostei de escrever. E de uns tempos para cá tenho contado com o incentivo e a generosidade de pessoas a quem sempre incentivei, como o sociólogo Ivo Lesbaupin e o teólogo pastoralista Névio Fiorin. Meus textos são publicados ora no Portal das Ceb's (Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica), ora na home page de uma instituição muito importante para setores religiosos progressistas ligados aos movimentos sociais. Certamente textos inéditos de minha autoria continuarão a ser publicados por lá também.

Mesmo assim, resolvi ter esse cantinho para escrever com maior liberdade, sobre os temas de meu interesse que dão nome a esse espaço. Mas também resolvi ter um blog para desestressar nessa quarentena. tem sido muito difícil  lidar com essas modalidades remotas que estão impondo ao magistério em geral. Para não adoecer mais ainda da alma nesses dias de reclusão quase absoluta.

Digo mais ainda porque não pude evitar uma dermatite severa no rosto, derivada dos dissabores que venho vivendo. Fora o aspecto estético, há a tensão de ver tudo sendo feito da pior maneira possível e não ter controle sobre quase nada.

E ainda tem o gasto financeiro, numa época em qualquer economia é necessária. E foi bem salgado, viu? Quem me restituirá não somente o valor financeiro, mas a paz de espírito e o prazer de lecionar? Temo que nada mais seja como antes, mesmo depois da quarentena.

Soube no consultório médico que não fui o primeiro. Certamente não serei o último. Tenho a desconfiança que, no que se refere à Educação Básica, nossa ementa sairá pior que o soneto. O tempo dirá se eu tenho razão.

É assustador pensar que hoje você participa involutáriamente de uma roleta russa toda vez que sai de casa. É cansativo retornar por causa de todos os cuidados necessários que devemos ter ao entrar em nossos lares. Nunca - nem no final da vida de meus pais - a morte foi um espectro tão presente na minha vida.

Por isso escrevo. E espero que tudo isso passe. Afinal, a vida me ensinou que não existe mal que dure eternamente. Sobreviveremos a esse momento. E que esse o "jorgenoblog" sobreviva também a esse vendaval que nos sacode nesses dias.

Bem vindx, espero que minhas palavras de alguma maneira ecoem em sua vida.

Nos vemos por aqui.

Apresentando o blog...

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