CONECTADOS ACIMA DE TUDO, ATIVIDADES EM CIMA DE TODOS
- Sobre as atividades escolares em tempos de quarentena –
Por Jorge Alexandre Alves*
Passados os primeiros dias de quarentena, estudantes, familiares e professores se viram envolvidos em uma questão importante: Como lidar com as tarefas escolares e com atividades acadêmicas em tempos de pandemia e de distanciamento social? As soluções apresentadas ou impostas dividiram as pessoas e são reveladoras.
De uma maneira geral, os sistemas de ensino fizeram duas opções. No Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II, o IFRJ, o CEFET-RJ – da rede federal de educação básica, técnica e tecnológica - EBTT, anunciaram a suspensão de seus calendários acadêmicos. Também as universidades federais (UFRJ, Uni-Rio, UFFRJ e UFF) e a Uerj fizeram a mesma coisa.
Nessas instituições, as respectivas comunidades escolares entenderam que dadas:
a) as diversas dificuldades dos estudantes em acessarem plataformas “on line”;
b) as questões logísticas das famílias (um só computador para toda a casa, dificuldades de conexão, atividades laborais de pais e responsáveis, ausência de espaço adequado para estudos);
c) as mudanças causadas por severas mudanças na rotina familiar – afinal estamos em confinamento e não em férias – que afetam não apenas estudantes, mas também profissionais da educação e suas famílias;
d) As impossibilidades dos estudantes causadas por situação socioeconômica das famílias dos estudantes.
O melhor que poderiam fazer é suspender seus respectivos calendários acadêmicos, com o compromisso de readequá-los assim que as condições sanitárias permitirem o retorno às aulas. Da mesma forma, os processos seletivos para novos alunos dessas renomadas instituições de ensino também estão adiados até segunda ordem.
Foi a decisão mais sábia nesse momento. A nossa geração vive uma situação inédita, talvez o grande momento histórico de nosso tempo. A forma pela qual sairemos disso é imprevisível. E junto com a pandemia coexiste uma grave crise econômica e uma sensação permanente de caos político provocado pelos desatinos da maior autoridade brasileira. Mas isso é outra história...
A imposição de modalidades escolares online aumenta os riscos de adoecimento de crianças e jovens estudantes pela sobrecarga de atividades remotas. Da mesma maneira com professores. Neste caso, provocado pela enorme pressão para produzir conteúdo remotamente. Coisa que se potencializa em tempos os quais nossas rotinas pessoais estão viradas ao avesso. E parece que isso não foi percebido antecipadamente pela sociedade, muito menos por uma parcela significativa do conjunto dos docentes.
Haveria também a grande chance de as atividades remotas aprofundarem a já abissal desigualdade social na aprendizagem. Estudantes de famílias com mais recursos tecnológicos teriam acesso aos conteúdos virtuais que certamente as famílias mais pobres não poderiam acessar, caso as aulas presenciais fossem simplesmente substituídas por tarefas via plataformas digitais. Mesmo que conteúdos sejam impressos e disponibilizados, isso significa fazer o estudante sair de casa e romper a quarentena para buscar material.
Evidentemente, suspender calendários acadêmicos modificará nossas agendas pessoais, alterará o cronograma de férias e causará impacto em nossas rotinas. Mas será que não ficou evidente nada mais será do mesmo jeito por um tempo? É ilusório acreditar que nosso cotidiano será retomado literalmente como era antes de sermos atingidos por essa pandemia.
O governo federal desobrigou as escolas a cumprirem os 200 dias letivos previstos na Lei de Diretrizes e Base (LDB). Mesmo mantendo a exigência de cumprir 800 horas anuais no período letivo, ainda assim seria possível cumprir o ano letivo em 160 dias com turnos de 5 horas por dia de aulas, cinco dias na semana. Ou seja, representa dois meses a menos de aulas, quando comparado com os calendários regulares de 200 dias letivos.
Não é o ideal, mas essa redução estava no horizonte de medidas da administração pública desde o começo do isolamento. Portanto, ainda estaríamos nesse período de carência de 40 dias letivos a menos, sem comprometer o término do ano letivo em 2020. Diante desse quadro, por que os sistemas de ensino que optaram por modalidades remotas de ensino não esperaram a decisão sobre o cumprimento do ano letivo?
É nesse contexto que estão postas as contradições sobre as atividades à distância. Elas atravessam contextos familiares e a situação doméstica de cada professor. Passa também pela força ou fraqueza de uma categoria profissional que muitas vezes não se entende como tal ou que pensa apenas em seus interesses mais imediatos. Há o debate pedagógico sobre esse momento da quarentena e seus impactos na vida de estudantes. Finalmente, há que se pensar nos interesses de gestores públicos e das próprias instituições escolares nesse momento.
Dessa forma, estamos diante de uma situação extremamente complexa que não pode ser reduzida simplificações rasas, nem tampouco podemos nos tornar reféns de soluções fáceis. De uma maneira geral, a impressão que se tem é que todo mundo está atirando para todos os lados. Isso passa naturalização – reforçada pelos meios de comunicação - do uso indiscriminado de recursos digitais que permitam algum tipo de conexão entre professores e estudantes.
Nessa perspectiva, a rede privada de ensino e a rede estadual de educação, sob a alçada da SEEDUC-RJ, entenderam que outro deveria ser o caminho. Compreenderam que o melhor a fazer pelos seus discentes seria instituir formas remotas de atividades escolares, de maneira que estudantes não perdessem uma certa rotina de estudos. Essa imposição – sem nenhum tipo de consulta prévia a professores e especialistas no uso dessas tecnologias – é justificada por um discurso quase sentimental em relação a alunos e alunas.
Crianças e adolescentes necessitariam ter uma rotina de estudos, como forma de ocupar seu tempo e também como meio de superar os efeitos psicológicos do afastamento. Por isso a importância de atividades que pudessem dar conta dessas necessidades. Mas esse discurso apelativo esconde outros elementos mais... digamos, pragmáticos.
Antes de tudo há um discurso que naturaliza as práticas impostas ao magistério das redes privada e pública estadual. O que vem sendo feito nas escolas dessas redes é, na verdade, teletrabalho docente com atividades escolares remotas por meios eletrônicos. São formas que muito pouco se parecem com a modalidade de ensino chamada de EaD. Relatos de professores que atuam ou já atuaram com Educação à Distância podem até não achar que esta seja uma modalidade efetiva e propícia para a educação, mas todos são unânimes em destacar que o que vem sendo adotado na rede pública estadual e nas escolas particulares passa longe de ser considerado EaD. Isso aparece no seguinte relato docente:
“Trabalhei na Modalidade SEMIPRESENCIAL durante 7 anos da minha carreira acadêmica, fiz cursos, participei de congressos, se quiserem, podem acessar o meu Lattes.
Fazer vídeo aulas não é EaD, desculpe, mas as propostas das escolas que vi até o momento estão MUITO longe de ser a Educação a Distância que conheço. Tanto das Instituições públicas e privadas onde estudei e trabalhei, não chegava nem perto das propostas que estão dando. E os alunos precisam ser preparados para essa modalidade. Eu trabalhava um semestre INTEIRO para fazer a adaptação dos meus alunos, na Modalidade semipresencial e no uso de ferramentas. (“A” – Docente de Biologia)
No caso das escolas estaduais, cabe questionar as razões que levaram o governo estadual a adotar uma plataforma privada, quando na esfera estadual temos uma conceituada faculdade de Educação na Uerj, e uma instituição especializada em EaD: o Cecierj. Também não há transparência sobre o custo ou quais contrapartidas foram oferecidas à gigante americana da área de internet para a disponibilização de suas ferramentas digitais. Professores e estudantes sequer foram consultados a respeito da cessão de seus dados pessoais para uma empresa privada e que uso ela poderá fazer dessas informações individuais.
Além disso, mobilizar ferramentas eletrônicas, redes digitais e aplicativos de comunicação já é prática bastante disseminada por professores de um modo ou de outros. Todavia, isso por si só não pode ser chamado de Educação à Distância. Sobre essa mesma questão, David Borges, professor de Filosofia da Universidade Federal do Piauí pondera:
Em uma estrutura de ensino à distância pela internet as aulas são gravadas com antecedência e editadas por um profissional do ramo, de forma que o professor possa usar recursos como mapas conceituais, slides e outros auxílios visuais inseridos no meio da explicação sem que haja perda de continuidade ou de ritmo, e de modo que esses auxílios visuais tenham uma qualidade de imagem alta o suficiente e fiquem expostos por tempo o suficiente para que o aluno consiga ver.
(...) é estupidez dos gestores julgarem que conectar um professor e seus alunos ao mesmo tempo em determinado horário é "ensino à distância", e também é incompetência pedagógica achar que os alunos estão aprendendo de forma adequada. E nem estou entrando no mérito do acesso (alguns alunos simplesmente não possuem os meios necessários para essa modalidade de ensino, ou a conexão de rede fica inconstante e sobrecarregada no horário predeterminado).
(....)EaD exige muito planejamento e uma equipe de profissionais para funcionar, e não apenas um professor bem-intencionado com um notebook. Quando eu trabalhava com isso, tínhamos um câmera, um técnico de som, monitores, um técnico de edição, um artista visual e uma equipe de planejamento pedagógico, além de uma equipe enorme de profissionais de TI. (BORGES, Davi – Ensino à distância não é a mesma coisa que aulas pela internet)
Diante de todas as questões levantadas ainda há uma pergunta crucial a ser feita. Mesmo que todos os estudantes tivessem acesso a esses recursos, será que nesse momento, tal proposta seria o melhor a ser feito em nome da educação?
Há um elemento que passa desapercebido nesse debate em torno do uso dessas ferramentas digitais. Para além das questões educativas, é necessário verificar em que medida isso não faz parte de uma estratégia para estabelecer controles eletrônicos do trabalho do professor. De forma mais visível – ainda que em níveis de pressão e cobrança variáveis – colégios particulares vêm impondo exigências aos docentes que os sobrecarregam e tornam mais estressantes a realização de suas atividades.
Reuniões on-line fora do horário de trabalho, exigência de produção de material audiovisual (são necessários em média 75 minutos entre gravação e edição para produzir uma videoaula de 15 minutos). Essas atividades passam por escrutínio permanente dos pais ou responsáveis e também dos estudantes. Dependendo dos humores das famílias e dos gestores, os professores são submetidos a pressões que, em não poucas situações, se tornam assédio moral.
Relatos sobre essas tensões aparecem em boa quantidade nas redes digitais e em grupos de aplicativos de mensagens. Analisá-las não é demanda simples e requer tempo. Por isso, essa tarefa – embora necessária e urgente - ficará para outra oportunidade, ainda nessa quarentena
Por sua vez, a SEEDUC ameaça com cortes de ponto e suspensão das horas extras (oficialmente chamadas de GLP – Gratificação por Lotação Provisória). Além disso, insiste em chamar o teletrabalho docente de EaD. Quanto a questão da acessibilidade, relativa à exclusão digital dos estudantes. Para os docentes, mobilizou um conjunto de ferramentas digitais e tutoriais. E só.
Diante desses fatos, a pandemia levanta uma série de elementos para reflexão, que serão refletidos em texto futuro. Oportunamente, trataremos de refletir o comportamento dos docentes em meio a essa situação, e a efetividade das tarefas remotas em termos de aprendizagem. Também será preciso analisar as atitudes dos familiares dos estudantes em meio a esse delicado momento. E, finalmente, a postura das instituições de ensino.
Nesse momento, temos a certeza que, estando ainda numa fase inicial desse distanciamento social, a pressão sobre professores e professoras cresce na mesma velocidade em que aumentam o número de casos da Covid-19 no Brasil. Já não são poucos docentes que apresentam sinais de estresse. Se não começam a adoecer do corpo, adoecem da alma.
O que se passa nas escolas da SEEDUC e na rede privada, de um jeito ou de outro, é reflexo desse momento sombrio que já assolava o país antes da Covid-19. Nas escolas em geral vemos a reprodução do que se passa na sociedade. Muitas vezes se pensa que, em nome dos empregos, pode-se violar todo e qualquer direito do trabalhador.
Logo, ambientes escolares presenciais – que talvez fossem até marcados pela camaradagem e pelo bom convívio – se converteram em espaços digitais tóxicos. Hoje, tais sítios digitais se caracterizam pela cobrança e pela culpabilização dos docentes. Isso tudo porque o lema da educação infelizmente pode ser definido como “CONECTADOS ACIMA DE TUDO, ATIVIDADES EM CIMA DE TODOS”
* Jorge Alexandre Alves é Mestre em Educação pela UFRJ, sociólogo e professor da Rede Federal de Educação Básica, Técnica e Tecnológica, da Rede Estadual de Educação e da rede privada.
Obs: O relato docente não tem o autor revelado por razões éticas.
Referências:
ANDRADE, Caio. EAD em tempos de isolamento social: oito apontamentos críticos. Youtube, 06/04/2020. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=9qcbUX6OpNs. Acesso em: 06/04/2020.
BORGES, Davi. Ensino à distância não é a mesma coisa que aulas pela internet. 2020 [texto disseminado por aplicativo de mensagens].
BRASIL. Medida Provisória nº 934, Estabelece normas excepcionais sobre o ano letivo da educação básica e do ensino superior decorrentes das medidas para enfrentamento da situação de emergência de saúde pública de que trata a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020. Brasília, 2020.