PANDEMIA, LUTO E RESPONSABILIDADE
Por Jorge Alexandre Alves
Ontem a Covid-19 levou um amigo de infância. Pessoas estimadas relatam a perda de seus queridos. Aqueles conhecidos pelas funções que ocupam estão em situação grave nos hospitais.
Mais dia, menos dia teremos
pessoas muito próximas — alguns entre nós já vivem essa trágica situação —
doentes. Cada vez mais a crônica de uma tragédia anunciada se torna fato
consumado.
Parece
que chegamos ao momento em que a pandemia transforma as cada vez mais elevadas
estatísticas de doentes e mortos em rostos concretos, gente de carne e osso,
pessoas a quem amávamos.
Quem
se vai deixa filhos e netos, os parentes ficam inconsoláveis. Nessa hora
derradeira, divergências políticas de nada valem porque não trarão essas
pessoas de volta. O vírus não escolhe ideologia, cor, religião ou classe
social.
Se há
alguma seleção nessa desgraça, ela ocorre pelo cuidado ou não que temos ou que
podemos ter. Para a maioria dos brasileiros, o isolamento necessário para
sobreviver não é uma possibilidade.
As
autoridades pouco fazem para socorrer a população mais pobre. E quando o fazem,
demoram tanto, criam tantas dificuldades que acabam expondo mais ainda essas
pessoas.
As
filas na Caixa Econômica e na Receita Federal não me deixam mentir.
Quem
se expõe e rompe seu distanciamento social, o faz por necessidade, por
convicção, por irresponsabilidade, ignorância ou por sadismo. De uma forma ou
de outra, acabarão por contaminar outros tantos que estão nas suas casas, as
vezes em situação de extrema necessidade.
Essa
gente pode estar cavando sua própria cova rasa ou a de seus parentes. E se, por
acaso, venham a se dar conta da gravidade do que fazem, talvez seja tarde mais
para reparar o erro.
Diante
de tamanha calamidade, é estarrecedor que autoridades finjam que nada está
acontecendo. Prefeitos fecham os olhos para as aglomerações ou autorizem o
comércio a abrir as portas indiscriminadamente.
Desconfio
que estudantes e docentes serão obrigados a retornar as escolas prematuramente.
Não é impossível pensar que isso poderá ocorrer em meio a expansão de mortes e
do colapso do sistema de saúde. Aceitarão passivamente?
É
muito triste pensar na ignorância, no egoísmo e na sociopatia de tanta gente
que se mete a ir às ruas exigir abertura de lojas ou a volta da ditadura. Que
fazem buzinaço na porta de hospitais. E dá enorme raiva ver o presidente se
comportando como regente dessa orquestra de imbecis.
Os
tempos estão cada vez mais sombrios. As próximas noites serão ainda mais
escuras. Entraremos talvez numa condição de luto coletivo porque todos podem
ter que vir a enterrar uma pessoa amada.
Impossível
não pensar nos 57 milhões de votos que elegeu quem hoje brinca com a vida do
Brasil e dos brasileiros. Tornaram-se um pouco cúmplices da desgraça que nos
abate hoje. São causadores indiretos desse gigantesco "ai" de dor que
começamos a dar.
Alguns
se arrependeram, outros estão constrangidos e tem gente que não tinha dimensão
do que estava por vir. Pior é que, apesar de tudo, ainda tem 30% por aí batendo
palma para a sociopatia reinante. O que dizer?
Como
será encarar essas pessoas quando tudo isso passar? Teremos um país arrasado
pela doença, arruinado pela economia e muito mais dividido politicamente.
Será
possível pensar em coletividade depois de tanta desgraça? Será possível
confraternizar com estes que promoveram o ódio e a morte? O que acontecerá com
nossas vidas e com o Brasil?
Jorge, paz e bem.Sua abordagem coloca muito bem o doloroso KAOS que vivemos e vai aumentar.
ResponderExcluirNo processo dialético temos que enfrentar o caótico momento da travessia.
Será longo, dolorido e mais complexo e profundo do que já é.
" Pai, Mãe nossa que estais nos céus. Venha a nós esta nova etapa do vosso Reino. Sejamos instrumentos de vossa vontade na construcao de um mundo e igrejas novas.
Que não falte nunca o pão nem a solidariedade.
Que tenhamos misericórdia uns com os outros.
Não nos deixe cair no mal do desespero, mas sejamos insyrumentos da Esperanca. Amém.
Laudato si mi Signore cum tucte le tue Creature.
Amigo, sinto muito por sua perda. Sinto pela perda de todos nós. Como disse outro dia aos colegas, acho que as pessoas não estão dimensionando tudo isso. Não cconsigo ver o dim se tudo isso, mas me entristeço ao perceber toda essa insensibilidade e loucura que tomou nosso país. Parece que clamamos em vão. Compartilho de sua perplexidade e me pergunto o que será de nós depois que essa onda passar, se é que vai passar.
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