O
complicado xadrez das nomeações episcopais
Por Jorge
Alexandre Alves*
Mais duas nomeações foram feitas para a Igreja do Brasil essa semana. Uma delas, estratégica demais por ser a capital do país.
Entretanto, o anúncio oficial do novo arcebispo foi precedido de vazamentos. Um site antecipou em um dia o nome do bispo e noticiou que ele estava envolvido em uma polêmica. Para aumentar o inusitado, um documento do vaticano (com carimbo de sigiloso) vazou em grupos de WhatsApp durante toda véspera da comunicação oficial pelo Vaticano.
Esta nomeação e esses eventos bizarros que a antecederam podem ser interpretadas como parte da guerra surda contra as reformas de Francisco que se materializam na Igreja do Brasil. Trata-se de um pontificado que sofre muito com resistências ao seu magistério em território nacional.
Há alguns anos acompanho esse xadrez das nomeações episcopais. E se ouve muita coisa aqui e ali através da "rádio sacristia" ou na "tv cúria diocesana"... Em alguns regionais, foram muito discutíveis as substituições recentes de bispos abertos à caminhada as Cebs e ao protagonismo do laicato.
Sempre pairou uma dúvida sobre se, no processo de escolha dos bispos, não havia alguma resistência a candidatos ao episcopado mais sintonizados com o perfil desejado pelo papa. Se esta tese é verdadeira, quem seriam os protagonistas da oposição ao Papa? Que movimentos na estrutura eclesiástica podem nos dar pistas dessa batalha não declarada?
Um indício talvez seja a troca do núncio apostólico, ocorrida recentemente. O anterior saiu da maior igreja nacional do catolicismo para ser “promovido” para a Rússia... A pátria do mais importante dos patriarcados da Igreja Ortodoxa, mas com um número bem pequeno de católicos e de dioceses.
Quando um documento sigiloso do vaticano sai na imprensa e circula por grupos de aplicativos de mensagens traz uma mensagem negativa para a Igreja. Primeiro, como um site jornalístico consegue acessar documentos que a grande mídia jamais tem acesso? Segundo, o propalado segredo pontifício cada vez mais deixa de ser secreto. Até cartas encíclicas vazam antes da hora, como foi com a Fratelli Tutti, dias atrás.
No caso de Brasília, a objeção, ressalvado o amplo direito de defesa e ao contraditório, é a acusação feita de racismo religioso, conforme relatou o site jornalístico de viés conservador “O Antagonista”. Estranho que tal polêmica a respeito de um prelado alinhado ideologicamente com essa página eletrônica seja publicada.
Tal acusação foi devidamente investigada? Quando interpelado sobre a denúncia, qual foi a postura e como o novo arcebispo da capital federal se referiu à vítima do racismo religioso? São questões que pairam no ar...
Tudo fica mais contraditório quando sabemos que, pouco tempo atrás, o Papa recebeu uma carta de religiosos e padres negros, que questionavam entre outras coisas a questão das nomeações episcopais. Francisco inclusive respondeu a carta e sua palavras se tornaram públicas. Soa estranho uma nomeação importante com essa suspeição de racismo religioso logo após esse colóquio.
De toda maneira, os eventos recentes trazem essa questão delicada do processo de escolha dos bispos, e de como o Povo de Deus é posto de lado nesse tema tão delicado. Muito pouco sabemos quais são os meandros e como chegam ao Papa os nomes pré-selecionados ao episcopado. Olhando o perfil de certos indicados, pode-se ter a impressão que Francisco está distante do Brasil.
De toda a forma, o campo conservador se rearticula, a nomeação para Brasília é uma vitória deste segmento, após algumas derrotas significativas, como a substituição ocorrida em Salvador. Essa articulação envolveu a nunciatura apostólica (só o tempo dirá que papel jogará o novo Núncio) e possivelmente passa pela secretaria da Congregação do Bispos – dicastério romano responsável por apresentar uma lista tríplice de nomes para o Papa escolher um bispo.
Se Francisco quer contar com o Brasil para as reformas que deseja, é preciso que opere mudanças. É urgente que se tenham prepostos mais alinhados com o Bispo de Roma a frente da “máquina de fazer bispos”. Senão, os opositores do Papa se sentirão cada vez mais fortalecidos. Quem sabe até para disputar a presidência da CNBB em futuro próximo.
O triste de todo esse jogo de poder é ver triunfar a ambição e o carreirismo em um tempo que se faz tão necessário ter profetas a serviço do Reino portando báculo, usando mitra e conduzindo o Povo de Deus. Em 18/10 um colunista de importante jornal de circulação nacional estranhava o silêncio da cúpula da Igreja no Brasil nesse grave momento de nossa história.
Por outro lado, cabe destacar as iniciativas corajosas que testemunhamos ultimamente. A Carta ao Povo de Deus, assinada por mais de 150 bispos é um belo exemplo, que nada deixa a desejar a figuras históricas do episcopado brasileiro, como Hélder Câmara, Pedro Casaldáliga e Paulo Evaristo Arns.
Finalmente, é preciso dizer que o carreirismo em nada é compatível com a mensagem do Evangelho, tampouco com os apelos a uma conversão pastoral proposta pelo Papa. O debate sobre a escolha e a nomeação dos bispos deve ser travado em sintonia com a ideia de sinodalidade que foi objeto de tanta reflexão no Sínodo para a Amazônia.
Sem esse pressuposto, corremos o risco de cairmos na tentação de apenas discutir nomes, sem pensarmos em um projeto de Igreja. Isso é fundamental para que a Igreja supere a mediocridade reinante neste momento. E que possamos caminhar para um catolicismo onde tenhamos cada vez mais bispos “com o cheiro das ovelhas”...
*Jorge Alexandre Alves é sociólogo e professor. Atua no Movimento Fé e Política

