O VÍDEO DO
BRASIL PARALELO
Por Jorge
Alexandre Alves*
Ontem saiu o tão falado vídeo da reunião de 22/04 do Conselho de Ministros do Governo Bolsonaro. Teríamos conhecimento das provas indicadas pelo ex-ministro Sérgio Moro a respeito de supostos crimes envolvendo o "mito". O dito audiovisual representaria a "bala de prata" atirada pelo "marreco" de Maringá no peito de seu antigo aliado, o Capitão Cloroquina, sepultando de vez o mandato do presidente Boso.
Havia uma expectativa – alimentada pela imprensa – que o registro audiovisual da reunião de abril representasse uma hecatombe política capaz de abalar o presidente da república. Todavia, o vídeo em si não trouxe nenhuma novidade. A divulgação do material por parte do Ministro Celso de Mello expôs algo que todos já tínhamos visto anteriormente a respeito do chefe do Executivo e de seus ministros mais caricatos.
Se o vídeo era para ser a prova cabal de um crime, mais uma vez se demonstrou que Sérgio Moro não é um perito no assunto. Ao contrário, o "marreco" parece ser muito fraquinho na matéria. O que deveriam ser contundentes evidências – claras e explícitas – acerca dos desvios de Jair Bolsonaro, estavam muito mais para "conversa de Candinha" ou futricas de pé-sujo em uma esquina de subúrbio.
As falas da reunião são graves, sem dúvida. Revelam atitudes nada condizentes com o exercício da presidência da República, sobretudo quando o país está afundado em crises. Mas as ditas "provas" do ex-juiz são, no máximo, indícios merecedores de investigação. Não será surpresa se a investigação for arquivada, deixando Moro com cara de marreco, com o mico na mão.
Bem mais sério é o presidente afirmar a vontade de armar a população. Nas entrelinhas de uma suposta defesa da democracia foi inoculado o vírus da tirania. Bolsonaro deixou explícito que deseja ver sangue derramado. Ele quer salvo conduto para armar suas milícias para uma eventual guerra civil.
Na verdade, tratou-se de uma reunião duplamente ordinária. Primeiro, porque todo e qualquer governo faz reuniões regulares com o conjunto de seus ministros. Mas é ordinária também porque, ao analisarmos as expressões, o trato e o uso das palavras, constatamos tragicamente que os responsáveis por decidir os destinos da República constituem um bando de ordinários.
O que o vídeo de 22 de Abril revelou foi uma mistura de reunião dos Irmãos Metralha com a Família Adams, onde a ministra Damares conseguiu a proeza de ser a nota bizarra em um convescoste de bizarros. O Jesus da ministra deve ter fugido de volta para a sua goiabeira de origem porque nem "Ele" deve ter aguentado tanta boçalidade junta. O choque tomado pela opinião pública deve-se à constatação que aquilo que se tornou público por conta de uma decisão judicial deve ser rotina em encontros dessa natureza.
Para aqueles que enxergam a natureza sociopata do presidente, fica mais uma vez acentuado o perigo que ele representa para as
instituições republicanas. O mandatário se aproveita da tragédia humanitária
causada pela Covid-19 –em meio à uma gravíssima crise econômica – para produzir
crise política. Sustenta-se no caos
social que ele mesmo provoca, como se já não bastasse todo o resto.
Obviamente, o conteúdo do
vídeo deixa os mais sensíveis escandalizados, a desfaçatez de alguns ministros causa
indignação e ficamos estarrecidos com a verborragia chula usada durante a
reunião. Mas não temos porque nos espantar com conteúdo. Talvez nos assuste a
forma despudorada. Entretanto, a essência que norteou as falas de 22/04 está presente
nos discursos e nas narrativas criadas no “Bolsonistão” desde que o “Messias”
se tornou um candidato viável do ponto de vista eleitoral.
Talvez o material tornado público pelo
STF assombre porque seu conteúdo lamentável nos apresentou o bolsonarismo no “atacado”.
Ocorre que o país tem lidado com essa excrescência em doses menores, com
aqueles personagens deprimentes se manifestando no varejo: Um discurso de ódio
aqui, um pronunciamento agressivo ali, uma botinada nos adversários acolá...
Todos juntos, de uma só vez, exibindo coletivamente o pior de cada um, somente em
um evento como uma reunião do Conselho de Ministros.
Em meio ao festival de besteiras que
assola o país constituído pelas intervenções dos veneráveis ministros e do
presidente, pode-se destacar quatro aspectos dos mais lastimáveis. O primeiro
deles consiste no evidente despautério presente na fala do ministro (ou seria
sinistro?) da Educação, Abraham Weintraub. Evidenciou um destempero, exibindo
um misto de agressividade, preconceitos e paranoias cuja lógica não encontramos
paralelo nem no anticomunismo dos tempos da Guerra Fria.
O segundo elemento que chamou a atenção
foi o oportunismo do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales. Ele lembrou que
o país inteiro se volta para a pandemia, dando uma “tranquilidade” (então o
drama de uma nação inteira acalma a vida de seus dirigentes?) ao governo. Essa “distração”
se converteria em oportunidade para “ir passando a boiada e mudando todo o
regramento” na área ambiental. Ou seja, enquanto o povo adoece e morre, o
governo deve aproveitar para acabar com toda e qualquer proteção ao meio
ambiente.
O terceiro aspecto está nas falas do
ministro Paulo Guedes, da Economia. Em princípio o aprofundamento de uma crise
econômica extremamente severa não deveria agradar nem mesmo ao Grande Capital. Porém,
nossa situação já entrou naquele estágio de retração econômica na qual até a
lucratividade do rentismo começa a ser afetada, a ponto de economistas liberais
questionarem a eficiência do uso de medidas neoliberais.
Por outro lado, intervenção do “Posto
Ipiranga” de Bolsonaro ainda continua centrada em uma crítica severa do
desenvolvimentismo. Logo, afirmar que o Banco do Brasil deve ser privatizado (“tem
que vender a p#@$*orra do Banco do Brasil!”) deve soar com música para segmentos
da alta burguesia como o clã bancário, parcelas do empresariado e também para
setores da grande mídia. Todos irmanados em suas posições liberais.
O
último elemento que mereceu destaque foi o comportamento do ministro-chefe da
Casa Civil durante as colocações do presidente. Elas sempre se seguiam ao aceno
positivo com a cabeça sinalizando consentimento, evidenciando a aceitação pelo General
Braga Netto ao conteúdo das sofríveis alocuções do mandatário. Ao que parece,
foi desmontada a crença daqueles que, lá na pelos idos de abril, acreditavam
existir uma tentativa de emparedamento do presidente pelas Forças Armadas, com
o objetivo de conter as ações destemperadas do Chefe de Governo. Se algo do
gênero existiu com a nomeação do ex-interventor do Rio de Janeiro, já foi revertido.
Fato é que não há bombeiros ou poder
moderador que controle os gestos públicos de Bolsonaro. Podemos então supor que
todos eles são ideologicamente muito parecidos. E se não há sinergia ideológica
que possa unir os generais ao bolsonarismo, há pelo menos uma aliança tácita
construída por conveniência (quase 3 mil militares estão desviados para cargos
no governo) e pela manutenção de privilégios da caserna.
Finalmente, há um elemento perverso. Em
22/04 o Brasil já vivia tragédia causada pela pandemia. O país já chorava por mais
de 2740 mortos e dezenas de milhares de pessoas acometidas pelo Corona vírus. E o sistema de saúde já começava a dar sinais
de colapso em várias cidades e regiões do país.
Apesar de tudo, a reunião do Conselho de
Ministros é reveladora de uma faceta aterrorizante. Em nenhum momento do vídeo
foi visto uma preocupação que fosse em combater a Covid-19. Aqueles vetustos representantes
dos “homens de bem” deste país parecem viver em uma realidade paralela, em um
Brasil paralelo onde somente a economia interessa.
A pandemia que assola a população é mero
infortúnio. Quando muito, uma oportunidade de ocasião. Enfim, nominar aquela
malfadada congregação ministerial de circo dos horrores talvez possa soar como
elogio.
*Jorge Alexandre Alves é Sociólogo,
Professor da Educação Básica e participa do Movimento Fé e Política.
Super esclarecedor!
ResponderExcluirConcordo com tudo!
E agora José?
Será que essa quadrilha está se preparando para uma guerra? Ele citou 142!intervenção?
Fiquei muito apreensiva.
Paz e Bem!
Jorge, realmente, não houve uma bala de prata e há brechas na fala do genocida que vão ser aproveitadas pelo sr Aras, o Geraldo Brindeiro do século XXI - ele está doido para ter uma desculpa para arquivaro processo -, para encerrar assunto. Ou seja, não vai dar em nada. Só que o vídeo não é a prova das provas. Há outras provas que corroboram a tese da intenção de interferência na PF:
ResponderExcluir1- O GSI não é responsável pela segurança dos amigos do presidente e ele mencionou que não quer que seus amigos sejam prejudicados
2- Segundo reportagem do JN, não faz muito tempo que houve mudanças no comando da segurança dos familiares do presidente, sendo o seu chefe inclusive promovido a General de Brigada,sendo seu segundo na hierarquia alçado a essa chefia. Bolsonaro disse que não estava satisfeito com essa segurança e que teria dificuldades de substituí-la. A troca e promoção dessas pessoas desmente Bolsonaro.
3- A mensagem de whatsapp de Bolsonaro para Moro em que o primeiro compartilha matéria de O Antagonista que menciona investigação de deputados bolsonaristas que estariam sendo investigados pela PF. Em seguida, ele escreve que era mais um motivo para a troca do Diretor da PF.
4- O primeiro ato do recém nomeado Diretor da PF foi justamente a troca do Superintendente da PF do RJ.
5- Ontem mesmo em entrevista, o próprio Bolsonaro revelou que gente da Polícia Civil e Militar do RJ amigos o haviam informado sobre investigações de seus filhos que estavam em curso.
Assim, não é só o vídeo, mas um conjunto probatório que se encaixam e que mostram que havia sim a intenção de interferir na PF por motivos particulares em inquéritos conduzidos pela polícia judiciária e que isso se concretizou com a troca do Diretor da PF e imediata mudança na Superintendência do RJ. Agora, como eu já disse, será muito difícil que o PGR o denuncie ao STF, por motivos que todos sabem acerca de sua nomeação para o cargo e mais tarde para Ministro do STF.
...se encaixa e mostra*
ResponderExcluir